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[Papo Apenã #009] Agrodóia: Agricultura Regenerativa na Caatinga — Vilmar Luiz Lermen (Domingos Sávio)

Vamos plantar água!!

Na caatinga pernambucana, encontramos uma associação que é um exemplo de movimento regenerativo. Liderada pelo Vilmar Luiz Verner, a Agrodóia é um sistema agroflorestal que já conta com mais de 500 espécies de plantas. A área atrai turistas e pesquisadores.

Esse é o primeiro episódio que tivemos o Domingos Sávio como host, filho de agricultores familiares nordestinos, economista de formação, desde sua graduação tem se dedicado bastante a estudar agroecologia, permacultura, agricultura familiar, etc. O Apenã não poderia encontrar um melhor host para essa entrevista. A conversa aconteceu no Crato-CE, durante a EXPROAF, Exposição dos Produtos da Agricultura Familiar do Cariri, região que engloba parte do Ceará e do Pernambuco.

Vilmar Lermen (direita) ao lado de Ernst Götsch (esquerda), grande referência em sistemas agroflorestais.

Sistemas agroflorestais (SAF), ou agroflorestas, são sistemas que reúnem as culturas de importância agronômica em consórcio com a floresta, uma planta ajudando a outra a se desenvolver, produzindo alimento de forma sustentável e com manejo integrado com florestas naturais. Dessa forma, a produção de alimentos não só não polui o ambiente ao não utilizar venenos e químicos, mas também contribui com a preservação do solo, ajuda na conservação da fauna e da flora, colabora com a fertilidade daquele ambiente e aumenta a produtividade com o passar do tempo.

É muito comum ouvir a frase “vamos plantar água”, em referência a recuperação da área anteriormente degradada, passando até mesmo a aumentar a quantidade de chuva no local, mesmo se tratando de uma área degradada e que costumava enfrentar seca. Isso pode ser muito bem ilustrado com a experiência do Agrodoia, na caatinga pernambucana. Outros exemplos famosos desse tipo de agricultura podem ser observados com o trabalho do Ernst Götsch, na Bahia e práticas na Fazenda da Toca, do Pedro Paulo Diniz, em São Paulo.

Agrodóia.

O exemplo da Agrodóia nos motiva e traz uma esperança real e ativa, de levantarmos as mangas e trabalharmos para o Amanhã Ambientalmente Regenerativo que precisamos construir.

A regeneração ambiental é uma das chaves para enfrentarmos o Caos Climático que se apresenta. Essa regeneração só vai realmente acontecer se levarmos em conta também a sociedade que nos envolve, trabalhando em conjunto com a comunidade.

Curso ministrado por Vilmar


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Outros textos

A Casa em Chamas

Por Gabriel Costa Oliveira

O título desse pequeno texto deriva de uma leitura feita há alguns anos enquanto o mundo era, ou ao menos parecia ser, um lugar menos incerto. Carl Sagan, talvez o maior comunicador de ciência da história, narra em seu derradeiro livro, O Mundo assombrado Pelos Demônios, uma antiga anedota budista com o mesmo título desse texto: A casa em chamas.

Nela um velho homem de vida próspera mora em uma grande casa com seus muitos filhos. Entretanto, um belo dia a casa irrompe em chamas e o velho homem, atento às chamas que o cercam, foge rapidamente do interior da casa, todavia, ele se depara com o horror de que seus muitos filhos distraídos em seus afazeres domésticos, jogos e brincadeiras não percebem as chamas e não tentam fugir delas perecendo em meio às labaredas.

Essa história seria ao menos prosaica se fosse ficcional, mas é extremamente trágica já que é vividamente real. Sim, nossa casa está em chamas, metafórica e literalmente. A Terra, lar da humanidade, está gradativamente mais quente e por influência direta humana.

Bem, você deve estar achando que as chamas são metafóricas ou exageradas, mas pelo segundo ano consecutivo o mundo enfrenta ondas de calor massivas: as temperaturas estão chegando à casa dos 50 graus Celsius no interior da Índia nas últimas semanas, nunca fez tanto calor neste período do verão na Finlândia. Em 2018 dezoito países do hemisfério norte enfrentaram uma das maiores ondas de calor de sua história, e que veio acompanhada de incêndios florestais (no Canada, Estados Unidos, Grécia, Suécia, Portugal e Rússia), mortes e hospitalizações de centenas de pessoas (como no caso japonês com 30 mil pessoas hospitalizadas) e bilhões de dólares em prejuízos.

Mas, pode-se argumentar que tais ondas de calor são fenômenos naturais, fatalidades trágicas em um sentido mais amplo. Certo? A resposta para essa questão é um sonoro “ Não”. Um estudo publicado no periódico científico americano Earth’s Future aponta que as ondas de calor que afetaram o hemisfério norte em 2018 não poderiam ter ocorrido sem o intermédio da mudança climática induzida pelo ser humano.

Mas, como eles chegaram à essas conclusões? Bem, trocando em miúdos o estudo comparou diversos modelos climáticos, gerados por computador com base nos dados climáticos (como temperatura, precipitação quantidade de dias com temperaturas maiores que as médias anuais) recolhidos por estações meteorológicas e serviços governamentais ao redor do mundo. Utilizando esses dados, amplamente disponíveis à comunidade científica, é possível construir modelos que nos permitem testar previsões e fenômenos como as ondas de calor.

Portanto, sua principal conclusão foi a de que sem o acréscimo na temperatura global, provocado pela intervenção humana, a maioria dos modelos não previam ondas de calor como as de 2018 e de 2019. Isso se enquadra muito bem no resto das previsões feitas por diversos estudos de que os fenômenos climáticos extremos estão ficando mais comuns.

Com tudo isso posto, me vem uma pergunta à mente: por que ainda há tantos negacionistas da mudança climática? Como em especial os Ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ou o ministro das relações exteriores Ernesto Araújo. Aqui, retornamos a metáfora da casa em chamas. Eles são ou ao menos representam os interesses dos distraídos filhos do velho senhor da antiga anedota budista.

Em sua empáfia habitual eles não percebem as chamas que estão consumindo paulatinamente aqueles que essas figuras caricatas representam. No caso de Salles, que representa a “linha dura” do agronegócio brasileiro, as mudanças climáticas, relacionadas à eventos extremos como as ondas de calor do hemisfério norte, podem representar a perda de bilhões de reais, na figura de secas ou inundações que destruam as lavouras. No caso de Araújo, engajado em uma cruzada ideológica quixotesca contra inimigos imaginários, a negação da mudança climática afeta negativamente a visão do Brasil perante à comunidade internacional. O Brasil troca a posição de líder na procura de soluções dos problemas climáticos pela de pária. Fechando as portas metafórica e literalmente à muitas iniciativas de investimentos e parcerias que, de novo, terão custos econômicos e sociais ao país.

Por fim, em uma perspectiva bastante trágica, não há como escapar da casa em chamas. Nem os filhos que não percebem, ou ainda, não querem perceber o literal e metafórico calor das chamas, nem ao velho, encarnado aqui como os ativistas ambientais, cientistas e demais cidadãos conscientes dos perigos que se avizinham. Parafraseando novamente Carl Sagan: ninguém vira de lugar nenhum para nos salvar de nós mesmos.

Eu espero e acredito sinceramente no potencial da reflexão de espaços como esses, mas, deixo aos leitores o pedido: o tempo está se esgotando, precisamos agir aqui e agora.

Leia também: [Apenã #034] Caos Climático — Pedro Faria (CDP)


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