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[Apenã #038] Decolonialismo — Gabriel Mantelli

O que é Decolonialismo?
Você conhece os anticoloniais? E o movimento pós colonial? O que é o Sul Global?

Você conhece e valoriza a ciência, a arte e a tecnologia de comunidades tradicionais? Você pode dividir com a gente a que mais te chamou atenção?

Referências:

ANTICOLONIAIS — ÁFRICA/CARIBE

Albert Memmi — Retrato do Colonizado

Aimé Cesáire — Discurso sobre o Colonialismo

Frantz Fanon — Os Condenados da Terra

PÓS-COLONIAIS E SUBALTERNIDADE — ÁSIA

Eward Said — Orientalismo

Ranajit Guha — Estudos Subalternos

Gyan Prakash — Subaltern studies as postcolonial criticism

Gayatri Spivak — Pode o Subalterno Falar?

MULTIDISCIPLINARIDADE — NORTE GLOBAL

Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e Helen Tiffin — The Empire Writes Back: Theory and Practice in Post-Colonial Literatures

Henry Schwarz e Sangeeta Ray — A Companion to Postcolonial Studies

Robert Young — Postcolonialism: An Historical Introduction

Graham Huggan — Oxford Handbook of Postcolonial Studies

EPISTEMOLOGIAS DO SUL

Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses — Epistemologias do Sul

Raewyn Connell — Using Southern theory: decolonizing social thought in theory, research and application

Jean Comaroff e John Comaroff — Theory from the South: or, how Euro-America is evolving toward Africa

MODERNIDADE/COLONIALIDADE — AMÉRICA LATINA

Anibal Quijano — Colonialidad y modernidade/racionalidad

Edgardo Lander — A Colonialidade do Saber: Eurocentrismo e Ciências Sociais, Perspectivas Latino-Americanas

Catherine Walsh — Interculturalidad crítica/pedagogia de-colonial

Ramón Grosfoguel — Para descolonizar os estudos de economia política e os estudos pós-coloniais

Walter Mignolo — Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política

Rita Segato — Gênero e colonialidade: em busca de chaves de leitura e de um vocabulário estratégico descolonial

Nelson Maldonado-Torres — A topologia do ser e a geopolítica do conhecimento

PESQUISAS RECENTES NO/A PARTIR DO BRASIL — CIÊNCIAS SOCIAIS E DIREITO

Sérgio Costa — Desprovincializando a sociologia: a contribuição pós-colonial

Joaze Bernardino-Costa — Decolonialidade e interseccionalidade emancipadora: a organização política das trabalhadoras domésticas no Brasil

Adélia Miglievich Ribeiro — Darcy Ribeiro e o enigma Brasil: um exercício de descolonização epistemológica

César Augusto Baldi — Descolonizando o ensino de direitos humanos?

Fernanda Bragato — Contribuições teóricas latino-americanas para a universalização dos direitos humanos

Luciana Ballestrin — América Latina e o giro decolonial

Thula Pires — Direitos humanos e Améfrica Ladina: por uma crítica amefricana ao colonialismo jurídico

Ísis Aparecida Conceição — Os limites dos direitos humanos acríticos em face do racismo estrutural brasileiro: o programa de penas e medidas alternativas do Estado de São Paulo

Estevão Fernandes — Decolonizando sexualidades: Enquadramentos coloniais e homossexualidade indígena no Brasil e nos Estados Unidos

Marcelo Rosa — A África, o Sul e as ciências sociais brasileiras: descolonização e abertura

Ciro de Souza Brito — Terra, propriedade e lugar: reflexões jurídicas sobre o desenvolvimento de quebradeiras de coco babaçu

Anna Paula Bagetti Zeifert e Vitória Agnoletto — O pensamento descolonial e a teoria crítica dos direitos humanos

Gabriel Mantelli e Michelle Ratton — Repensando o direito internacional a partir dos estudos pós-coloniais e decoloniais


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[Apenã 037] Ecovilas e Cidades em Transição — Taisa Mattos

Arte: Icaro Uther

Uma conversa sobre Taisa Mattos, do Conecta Ecossocial e do GEN, sobre o movimento de Ecovilas e o movimento de Cidades em Transição.

Áudio sobre experiência do Gabriel Siqueira, do Irradiando luz no movimento de Ecovilas.
Áudio do ep [Apenã 33] Cidades para Pessoas.

Links relacionados:
www.catarse.me/melindigena
https://ecovillage.org/
www.conectaecossocial.com/
irradiandoluz.com.br/
Apenan — 033-Cidades-para-Pessoas — Lucas-Nassar
www.researchgate.net/publication/31…no_meio_urbano


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Outros textos

A liberação de inseticidas perigosos para a vida

Legalidade do Fipronil e seus impactos na vida das abelhas

Se interessa na proteção de abelhas, dá uma olhada nesse projeto 😉

Aatual apicultura passa por grandes problemas: a morte massiva e o desaparecimento de abelhas, em especial da espécie Apis mellifera. Dentre os principais culpados, aponta-se um inseticida, por ser utilizado indiscriminadamente como defensor agrícola, principalmente, nas culturas de batata, cana-de-açúcar, milho, algodão, arroz, eucalipto e soja, ou seja, está presente, em grande parte da agricultura nacional.

O Fipronil é um inseticida, descoberto em 1987 pela transnacional Rhône-Poulec, introduzido no mercado em 1993, regulamentado e permitido no Brasil desde meados de 1994. É utilizado no controle de insetos em plantações, bem como contra pulgas e carrapatos em animais domésticos.

A contaminação das abelhas por esse inseticida acontece devido ao uso em excesso da substância, que permanecendo no ambiente por um longo período de tempo é dissipado no momento da irrigação, contaminando, principalmente, a água e o solo, fazendo com que os insetos não-alvo, que entram em contato com o ambiente contaminado, sofram também, a ação desse.

A substância age no sistema nervoso do inseto, além de atuar bloqueando os canais de sódio, o que causa excitação nervosa excessiva, paralisia severa e morte ou grave deficiência na atividade dos neurônios, ligados ao aprendizado e memória, alterando as estruturas cerebrais. Quando a abelha é exposta ao produto e essa não vem a morrer imediatamente, ao ir para a colmeia, estando infectada, a substância presente em seu corpo contamina as demais abelhas, ocasionando o Distúrbio do Colapso das Colônias (CCD), ou seja, o enxame começa a morrer de forma demasiada.

O uso inapropriado da substância atinge a função vital que as abelhas têm na natureza. Ressalta-se, que elas são responsáveis por polinizar cerca de 90% da produção de plantas com flores. Além disso, 70% das plantas cultivadas para alimentação, principalmente frutas e verduras carecem de polinização. Encarregadas, ainda, a garantir o equilíbrio do ecossistema. (IPBES,2016)

Essa circunstância demanda urgência de novas políticas públicas que restrinjam o uso da substância, que segundo levantamento realizado pela ONG Repórter Brasil em conjunto com Agência Pública, nos meses de dezembro de 2018 a Fevereiro de 2019, 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas, no qual a grande maioria dos casos registradas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

Enquanto isso, segundo a Anvisa, sua classificação toxicológica, está no nível II, isto é, moderadamente tóxico. Cabe dizer que sua liberação é para uso em pequenas quantidades, que não chegariam a trazer tais danos ao ambiente, mas a autorização deixa brecha para seu uso desordenado, sem que haja medidas de coerção quanto a sua utilização abusiva.

O uso desenfreado do Fipronil traz tantos malefícios quanto se possa imaginar: a morte das abelhas e de outros insetos, a contaminação do solo, da água, entre tantos outros fatores a esses interligados. Esse desequilíbrio ecológico vai na contramão do artigo 225 da Constituição Federal. Assim a questão da legalidade de tal agrotóxico se torna complexa, já que por um lado apresenta todas as autorizações legais para o seu uso, mas por outro prejudica o equilíbrio ambiental previsto na constituição.

Art. 225 Direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preserva- ló para as presentes e futuras gerações.

O direito ao meio ambiente sadio, segundo o jurista Édis Milaré, configura-se, na verdade, como uma extensão do direito à vida, quer sob o enfoque da própria existência física e saúde dos seres humanos, quer sob o aspecto da dignidade desta existência — a qualidade de vida, que faz com que valha a pena viver.

Além da alarmante situação ecológica e da ilegalidade da situação, há ainda consequências econômicas, tendo em vista que de acordo com a Associação Brasileira de exportadores de mel, o mel brasileiro é considerado um dos mais puros, tendo grande aceitação no mercado internacional. Utilizado na composição de diversos produtos, o Brasil está entre os 10 maiores exportadores de mel no mundo. (ABEMEL,2018) Porém, a sua contaminação por Fipronil, o faz impróprio para sua comercialização, trazendo, assim, um proeminente prejuízo para e economia acerca da exportação do mel.

É certo que há, mesmo que tímido, algum esforço para que essa situação se modifique, como a iniciativa do governador de Santa Catarina que criou uma medida provisória que traz uma tributação mais elevada aos agrotóxicos, variando conforme seu grau de toxidade. Medidas como essa, visam uma agricultura saudável e livre de maiores riscos, tanto à natureza quanto às pessoas que consomem os produtos.

Atualmente, a legislação vigente, diz que os produtos do tipo, só podem ter a sua autorização concedida, posteriormente à aprovação dos órgãos de saúde responsáveis pelo controle de comercialização, ANVISA e IBAMA. A atual alteração da Lei 7.802, de 11 de julho de 1989, não modificou essa sistemática, entretanto, várias regras foram enfraquecidas quanto ao uso, controle e fiscalização. Desta forma, houve ao mesmo tempo a desburocratização e redução do tempo de registro dos defensivos agrícolas no país. Ressalta-se que a ONU já alertou o Congresso sobre os riscos de tais medidas.

De maneira irresponsável, ainda, foi dada maior concentração de poder ao Ministério da Agricultura, que podem liberar vários produtos sem antes da conclusão de análise dos demais órgãos de saúde, se bastando apenas de um relatório temporário, o que vai contra o que foi estabelecido anteriormente em prol da segurança pública no que diz respeito à saúde.

Bom, ainda que fosse mantida uma legislação pertinente a regras vigoradas desde a criação da Lei de 1989, tem-se uma ineficiência quanto aos levantamentos de dados, limitando bastante o rastreamentos dos produtos tóxicos no solo, no ar ou na água, devido a falta de incentivo a pesquisas no Brasil.

Dessas forma, diante de todo exposto, percebe-se a urgência que o Estado brasileiro tem na elaboração de novas normas que verifiquem a legalidade, bem como a procedência do Fipronil e de outros inseticidas que contaminam o meio ambiente. As abelhas são imprescindíveis para nossa sobrevivência e o seu imoderado desaparecimento é um alarme de que há um problema no ecossistema. Não podemos esperar um desastre para realmente agirmos, a extinção das abelhas nos levariam ao caos, e cabe ao Estado solucionar essa violação, assim como, a população cobrar uma mudança nas políticas em torno do ambiente.

Autor: Grupo de estudo sobre as consequências dos agrotóxicos no meio ambiente do Centro Universitário de Anápolis- UniEvangélica, coordenado pela professora Me. Áurea Marchetti Bandeira em cooperação com as acadêmicas: Eliza Maria da Silva Porto, Érica Mara de Freitas Matos, Jade Ventura Giordano, Renatta Pereira Gontijo Freitas.

Referências

Avaliação dos efeitos tóxicos da exposição pré-natal ao fipronil na prole de ratas Wistar/ Mariana Sayuri Berto Udo — São Paulo 2012

Irrigação contínua e intermitente em arroz irrigado: uso de água, eficiência agronômica e dissipação de imazethapyr, imazapic e fipronil/ por Rafael Friguetto Mezzomo; orientados Luis Antonio de Avila. — Santa Maria, 2009

O agrotóxico que matou 50 milhões de abelhas — Aline Torres, BBC Brasil, São Paulo, julho de 2019.

Revisão da Legislação Brasileira de Agrotóxicos — Ministério da Agricultura, Brasília, junho de 2019.

Milaré, Édis. Princípios fundamentais do direito do ambiente. Justitia, São Paulo, 1998.

ANVISA. Consulta Pública n° 201, de 07 de junho de 2016.Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/documents/10181/2822901/CONSULTA+P%C3%9ABLICA+N+201+GGTOX.pdf/dc7c63e0-9ae5-400a-ba85-5161ba95248a


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[Papo Apenã #11] Amazônia em Chamas — Mylena Diniz e Rodrigo Sampaio

Um episódio sobre a Amazônia em Chamas, trazendo uma perspectiva de Amazônidas. Conversei com o Rodrigo Sampaio e trouxe também a Mylena Diniz para conversa, dois amigos queridos que conheci quando morava em Marabá (no período de escola ou de universidade).

Esse foi um episódio que até me deixou pensando se falei coisas pessoais demais. Eu trouxe amigos íntimos de um tempo anterior ao podcast (não que eu não tenha feito exatamente isso antes), mas eu também falei das minhas motivações para desenvolver o projeto Mejkangati de produção de mel indígena, que vem de contatos bem próximos e até da apicultura presente na infância. Me senti abrindo a porta de casa e pra uma conversa regada ao suco feito pelo papai (sim, porque ele é o rei dos sucos).

Mas acho que a ideia é justamente essa, trazer um pouco da realidade de quem mora na região Amazônica. Entender o que está acontecendo nas nossas casas dentro da cidade(tem gente ficando doente só de sair de casa e respirar essa fumaça!!), entender a situação ainda pior da zona rural, entender como as queimadas costumam ocorrer todos os anos, mas entender também a diferença das queimadas desse ano!

Somos Amazônidas e temos voz.

Links relacionados:

Projeto Mejkangati: www.catarse.me/melindigena


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[Apenã #036] Um Laboratório De Utopias — Miriam Kohn, Olivier Baumann e Christopher Kriese

Uma dose de Utopia, uma dose de Anarquismo, uma dose de Auto-Organização.
No meio da Alemanha, um grupo de jovens estudantes e trabalhadores se reuniram para debater questões importantes para nosso tempo. Para minha surpresa, uma boa quantidade deles falava ou pelo menos entendia português e três deles toparam conversar conosco em um episódio para pensarmos nas utopias necessárias para a construção do Amanhã que precisamos.

Republik

Republik, onde a Miriam é diretora, é uma revista digital sobre política, negócios, sociedade e cultura. Ela traz um modelo um pouco diferente, pois é financiada somente por seus leitores, ela evita cair nas mãos dos lobistas. Do site da revista Republik, em tradução livre:
“Um projeto contra o cinismo:
Nosso jornalismo defende as instituições da democracia contra o avanço dos autoritários. Nós não somos guiados pelo medo, mas pelos valores da transparência.
A Suíça é bem sucedida quando liberais e esquerdistas, progressistas e conservadores lutam por soluções juntos. É por isso que a Republik não é politicamente fixa, mas de modo algum neutra.
Defendemos a fidelidade aos fatos, a abertura à crítica, o desrespeito ao poder e o respeito ao povo.
Nossa revista é independente e livre de anúncios.
O único produto é o jornalismo sensato. E nosso único cliente é você. Nós oferecemos uma organização dos dados e um aprofundamento nas reportagens em vez de uma enxurrada de notícias. Queremos lhe inspirar, enriquecer e surpreender — com contribuições para as questões urgentes da atualidade.”

Tomorrow

Olivier é o co-fundador da Tomorrow, uma startup de tecnologia que desenvolve soluções digitais escaláveis sobre mudança climática.
A ideia da Tomorrow é abordar o impacto climático de todas as escolhas que você faz, calculando automaticamente o impacto climático de suas escolhas diárias, ao se conectar a aplicativos e serviços que você já usa, deixando acessível a todos o impacto climático de tudo.
Enfrentar as Mudanças Climáticas é o maior desafio da nossa geração e vai causar uma das mais profundas transformações sociais que o mundo já viu.
Tomorrow busca divulgar informações a respeito das Mudanças Climáticas para que possamos compreender o impacto climático das nossas ações. Dessa forma as pessoas teriam o poder do conhecimento para tomar decisões melhores e mais bem informadas.
Eles observam o que podemos fazer para reduzir a produção de CO2 por pessoa, apontando como principais das formas de reduzir nossos impactos: reduzir viagens de longa distância; parar a produção de energia em usinas de carvão, gás e petróleo; e evitar o consumo de carne vermelha.
A maior parte do trabalho deles é em código aberto, permitindo que qualquer pessoa contribua com os projetos e verifique os modelos desenvolvidos.

Teatro do Oprimido

Teatro do Oprimido é uma metodologia teatral elaborada pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal que pretende usar o teatro como ferramenta de trabalho político, social, ético e estético. Tem em vista a democratização dos meios de produção teatral, o acesso das camadas sociais menos favorecidas e a transformação da realidade através do diálogo, tal como Paulo Freire pensou a educação, mas agora no teatro. Ao mesmo tempo, traz toda uma nova técnica para a preparação do ator que tem grande repercussão mundial.
Além da arte cênica propriamente, também existe a finalidade política da conscientização, onde o teatro torna-se o veículo para a organização, debate dos problemas, além de possibilitar, com suas técnicas, a formação de sujeitos sociais que possam fazer-se veículo multiplicador da defesa por direitos e cidadania para a comunidade onde o Teatro do Oprimido está a ser aplicado.
Aplicado no Brasil pelas ruas, escolas, igrejas, sindicatos, teatros regulares, prisões, etc. em parceria com diversas ONGs, como as católicas Pastoral Carcerária e CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), ou movimentos sociais, como o MST, as técnicas de Boal ganharam mundo, sendo suas obras traduzidas em mais de 20 idiomas.
O Teatro do Oprimido sistematiza Exercícios, Jogos e Técnicas Teatrais que objetivam a ativação sensorial e desmecanização física e intelectual de seus praticantes, e a democratização do teatro.
Fazem parte da “Árvore do Teatro do Oprimido” técnicas como: o teatro-imagem, o teatro-jornal, o teatro invisível, o arco-íris do desejo, o teatro-fórum e o teatro legislativo.
O Teatro do Oprimido assenta em três grandes princípios, que são as suas propostas mais fortes: a reapropriação dos meios de produção teatral pelos oprimidos, a quebra da quarta parede que separa o público dos atores e a insuficiência do teatro para a transformação social, isto é, a necessidade de ele se integrar num trabalho social e político mais amplo.
O TO parte do princípio de que a linguagem teatral é a linguagem humana que é usada por todas as pessoas no cotidiano. Sendo assim, todos podem desenvolvê-la e fazer teatro. Desta forma, o TO cria condições práticas para que o oprimido se aproprie dos meios de produzir teatro e assim amplie suas possibilidades de expressão. Além de estabelecer uma comunicação direta, ativa e propositiva entre espectadores e atores.
Dentro do sistema proposto por Boal, o treinamento do ator segue uma série de proposições que podem ser aplicadas em conjunto ou mesmo separadamente.
Cumpre ressaltar que todas as técnicas pressupõem a criação de grupos, onde o Teatro do Oprimido terá sua aplicação.

Heróis da Negatividade

O cientista da informação Bernhard Pörksen desenvolveu a ideia de “heroes da negatividade” em seu livro “Die grosse Gereiztheit” (que pode ser traduzido como “A grande irritação”). Há alguns anos, os políticos tinham um certo controle como eles eram percebidos publicamente. Eles podiam controlar uma certa imagem que o povo tinha deles. Agora com mídias sociais, com uma grande aceleração do circuito de notícias e com câmeras de celular em todos os lugares, todos podem fazer registros, não sendo mais possível “proteger” uma certa imagem. Isso fez possível o surgimento de uma nova forma de políticos: Invés de projetar uma imagem profissional, calma e digna, esses “heroes da negatividade” abertamente aparecem de uma forma banal, bruta e indecente. Eles não precisam “proteger” a sua imagem pública contra escândalos, porque todo mundo já sabe, que eles são vilões. Mesmo assim muitas pessoas apreciam a nova autenticidade que esse estilo de comunicação traz. Não é mais possível ferir a reputação deles com “revelações” sobre algo que eles fizeram ou disseram, porque não tem uma imagem a agredir. Eles mesmos já revelam abertamente seus defeitos a todos. Por isso a sátira, o jornalismo investigativo e protestos não têm o mesmo efeito contra eles. Novas estratégias são necessárias contra Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro.

Janela de Overton

A janela de Overton, também conhecida como janela do discurso, descreve a gama de ideias toleradas no discurso público.
A janela inclui uma gama de políticas consideradas politicamente aceitáveis no clima atual da opinião pública, que um político pode recomendar sem ser considerado excessivamente extremo para obter ou manter cargos públicos.
Essa janela pode ser deslocada ao se valer de um discurso de centro-esquerda como se fosse um discurso de extrema esquerda, por exemplo. Assim, um discurso de extrema direita passa a estar dentro dessa janela e se tornar aceitável.
Exemplos desse método pôde ser observado no desenvolvimento da extrema direita no cenário mundial, inclusive brasileiro, nos últimos anos.

Movimento Occupy

O movimento Occupy foi um movimento internacional que expressou oposição à desigualdade social e econômica e à falta de “democracia real” em todo o mundo. Seu objetivo principal era promover a justiça social e econômica e novas formas de democracia. O movimento tinha muitos escopos diferentes, já que grupos locais frequentemente tinham focos diferentes, mas suas principais preocupações incluíam como as grandes corporações (e o sistema financeiro global) controlam o mundo de uma forma que beneficiam desproporcionalmente uma minoria, minam a democracia e causam instabilidade. Ele fez parte do que foi chamou de “movimento pela justiça global”.
O primeiro protesto Occupy a receber atenção generalizada, Occupy Wall Street no Zuccotti Park de Nova York, começou em 17 de setembro de 2011. Até 9 de outubro, protestos do Occupy ocorreram em mais de 951 cidades em 82 países e em mais de 600 comunidades nos Estados Unidos.
Pode-se relacionar o movimento Occupy com a Primavera Árabe, o Movimento Verde Iraniano de 2009 e Movimento Indignados Espanhol, bem como da onda global global de protestos anti-austeridade de 2010 e seguintes. O movimento comumente usa o slogan “Nós somos os 99%” e o formato de hashtag #Occupy; organiza-se através de sites como o Occupy Together.
O movimento foi descrito como tendo um “compromisso primordial” para a democracia participativa. Grande parte do processo democrático do movimento ocorre em “grupos de trabalho”, onde qualquer manifestante é capaz de ter sua opinião. Decisões importantes são frequentemente tomadas nas Assembléias Gerais, as quais podem ser informadas pelos resultados de múltiplos grupos de trabalho. As decisões são tomadas usando o modelo consensual de democracia participativa. Isso muitas vezes caracteriza o uso de sinais manuais para aumentar a participação e operar com facilitadores de discussão em vez de líderes — um sistema que pode ser rastreado em parte pelo movimento Quaker há vários séculos, à democracia participativa na antiga Atenas e aos conselhos espaciais de 1999. movimento antiglobalização.
Nas assembléias, as propostas dos grupos de trabalho são feitas aos participantes da reunião, que comentam sobre eles usando um processo chamado pilha; uma fila de alto-falantes que qualquer um pode participar. Na Cidade de Nova York, o Occupy Wall Street usa o que é chamado de pilha progressiva, na qual pessoas de grupos marginalizados às vezes podem falar diante de pessoas de grupos dominantes, com facilitadores ou encarregados da pilha, encorajando os palestrantes a “dar um passo adiante”. de volta “com base em qual grupo eles pertencem, o que significa que as mulheres e as minorias podem ir para a frente da linha, enquanto os homens brancos devem freqüentemente esperar por uma vez para falar. O conceito de pilha progressiva foi criticado por alguns fora do movimento como “igualdade forçada” e “injusta”.

Escola autônoma de Zurique (Autonome Schule Zürich, ASZ)

A escola é um projeto contra racismo e injusticia. Ela é um ponto de encontro, aonde se pode conhecer outras pessoas.
A ASZ funciona «autônoma». Autônomo quer dizer independente e auto-governado. A escola não pertence ao governo e não recebe ajuda ou dinheiro do governo. A escola de vez em quando recebe material escolar e dinheiro de entidades particulares.
Estudantes e professores trabalham juntos. Os professores e as professoras também são estudantes. Os estudantes também são professores e professoras. Todo mundo é uma parte importante da ASZ. Não tem chefe.
A organização da ASZ e feita pelo escritório da escola e todo mundo trabalha voluntariamente.
Uma reunião plenária é realizada mensalmente para discutir sobre assuntos importantes. Vários grupos de trabalho fazem várias tarefas. Todos participantes da ASZ são responsáveis de criar um lugar de conjunto.
Na ASZ também podem ser realizado próprias idéias. Nos ficamos contente, se você participa de reuniões, trabalha em grupos de trabalho, realiza projetos ou próprias ideias na ASZ.

Links:
Fala da Judith Butler na Occupy WSP: www.youtube.com/watch?v=rYfLZsb9by4
Escola Autônoma de Zurique: www.bildung-fuer-alle.ch/eintrag/portugisiesch
Livro Die Größe Gereiztheit: www.amazon.de/Die-gro%C3%9Fe-Ger…58442?tag=duc03-21
Tomorrow: tmrow.com
Republik: www.republik.ch/


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[Papo Apenã #010] Jornalismo Investigativo — Barbara Viana

Boas vindas pra Bárbara Viana!

A nova membro do Apenã veio participar de uma conversa sobre Jornalismo Investigativo!

A conversa ocorreu logo após o curso sobre Jornalismo Investigativo que aconteceu em Fortaleza com a Nayara Felizardo, correspondente do Intercept no Norte e Nordeste.

Nao podíamos deixar de falar sobre as especificidades do jornalismo independente no Ceará, como a forte presença de radialistas, que vem sofrido perseguição e até mesmo mortos devido ao seu trabalho de denuncia no interior do estado.
Vários outros temas foram abordados, como perseguição a jornalistas e à professora Lola, “uberização” do trabalho, etc.
Algumas das matérias mencionadas:
– Sobre reconhecimento facial aqui e aqui
– Sobre a perseguição da professora Lola
– Sobre perseguição de jornalistas
– Assassinato de radialistas aquiaqui e aqui
– Sobre a engenharia genética
– Sobre a dispensa da ala cardiológica do Monte Klinikum
– Sobre cobradores de ônibus
– Sobre Carmen Lúcia e grandes laboratórios


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[Apenã #035] I Kaben Ma (Escuta Minha Fala) — Coletivo Beture: Simone e Bepunu

Beture, um coletivo de cineastas indígenas que fazem um trabalho audiovisual tanto dentro da aldeia e quanto acompanhando o movimento político indígena pelo Brasil.

Para participarem de evento no Reino Unido, o coletivo Beture recebeu as passagens da empresa Lush para o velho continente, que tentaram conciliar com o máximo de outras atividades no período. Foi um grande prazer os receber na Alemanha, conhecer o Bepunu pessoalmente, estreitar meus laços com a Associação Floresta Protegida e conhecer melhor o trabalho do coletivo Beture.

Links relacionados:
Facebook Coletivo Beture: www.facebook.com/coletivobetureci…astasmebengokre/
Site Associação Floresta Protegida: florestaprotegida.org.br/
Youtube Associação Floresta Protegida: www.youtube.com/channel/UCp4gEMkupeO0M-jsw1Vkykw
Instituto Socioambiental: www.socioambiental.org/pt-br

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[Papo Apenã #009] Agrodóia: Agricultura Regenerativa na Caatinga — Vilmar Luiz Lermen (Domingos Sávio)

Vamos plantar água!!

Na caatinga pernambucana, encontramos uma associação que é um exemplo de movimento regenerativo. Liderada pelo Vilmar Luiz Verner, a Agrodóia é um sistema agroflorestal que já conta com mais de 500 espécies de plantas. A área atrai turistas e pesquisadores.

Esse é o primeiro episódio que tivemos o Domingos Sávio como host, filho de agricultores familiares nordestinos, economista de formação, desde sua graduação tem se dedicado bastante a estudar agroecologia, permacultura, agricultura familiar, etc. O Apenã não poderia encontrar um melhor host para essa entrevista. A conversa aconteceu no Crato-CE, durante a EXPROAF, Exposição dos Produtos da Agricultura Familiar do Cariri, região que engloba parte do Ceará e do Pernambuco.

Vilmar Lermen (direita) ao lado de Ernst Götsch (esquerda), grande referência em sistemas agroflorestais.

Sistemas agroflorestais (SAF), ou agroflorestas, são sistemas que reúnem as culturas de importância agronômica em consórcio com a floresta, uma planta ajudando a outra a se desenvolver, produzindo alimento de forma sustentável e com manejo integrado com florestas naturais. Dessa forma, a produção de alimentos não só não polui o ambiente ao não utilizar venenos e químicos, mas também contribui com a preservação do solo, ajuda na conservação da fauna e da flora, colabora com a fertilidade daquele ambiente e aumenta a produtividade com o passar do tempo.

É muito comum ouvir a frase “vamos plantar água”, em referência a recuperação da área anteriormente degradada, passando até mesmo a aumentar a quantidade de chuva no local, mesmo se tratando de uma área degradada e que costumava enfrentar seca. Isso pode ser muito bem ilustrado com a experiência do Agrodoia, na caatinga pernambucana. Outros exemplos famosos desse tipo de agricultura podem ser observados com o trabalho do Ernst Götsch, na Bahia e práticas na Fazenda da Toca, do Pedro Paulo Diniz, em São Paulo.

Agrodóia.

O exemplo da Agrodóia nos motiva e traz uma esperança real e ativa, de levantarmos as mangas e trabalharmos para o Amanhã Ambientalmente Regenerativo que precisamos construir.

A regeneração ambiental é uma das chaves para enfrentarmos o Caos Climático que se apresenta. Essa regeneração só vai realmente acontecer se levarmos em conta também a sociedade que nos envolve, trabalhando em conjunto com a comunidade.

Curso ministrado por Vilmar


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A Casa em Chamas

Por Gabriel Costa Oliveira

O título desse pequeno texto deriva de uma leitura feita há alguns anos enquanto o mundo era, ou ao menos parecia ser, um lugar menos incerto. Carl Sagan, talvez o maior comunicador de ciência da história, narra em seu derradeiro livro, O Mundo assombrado Pelos Demônios, uma antiga anedota budista com o mesmo título desse texto: A casa em chamas.

Nela um velho homem de vida próspera mora em uma grande casa com seus muitos filhos. Entretanto, um belo dia a casa irrompe em chamas e o velho homem, atento às chamas que o cercam, foge rapidamente do interior da casa, todavia, ele se depara com o horror de que seus muitos filhos distraídos em seus afazeres domésticos, jogos e brincadeiras não percebem as chamas e não tentam fugir delas perecendo em meio às labaredas.

Essa história seria ao menos prosaica se fosse ficcional, mas é extremamente trágica já que é vividamente real. Sim, nossa casa está em chamas, metafórica e literalmente. A Terra, lar da humanidade, está gradativamente mais quente e por influência direta humana.

Bem, você deve estar achando que as chamas são metafóricas ou exageradas, mas pelo segundo ano consecutivo o mundo enfrenta ondas de calor massivas: as temperaturas estão chegando à casa dos 50 graus Celsius no interior da Índia nas últimas semanas, nunca fez tanto calor neste período do verão na Finlândia. Em 2018 dezoito países do hemisfério norte enfrentaram uma das maiores ondas de calor de sua história, e que veio acompanhada de incêndios florestais (no Canada, Estados Unidos, Grécia, Suécia, Portugal e Rússia), mortes e hospitalizações de centenas de pessoas (como no caso japonês com 30 mil pessoas hospitalizadas) e bilhões de dólares em prejuízos.

Mas, pode-se argumentar que tais ondas de calor são fenômenos naturais, fatalidades trágicas em um sentido mais amplo. Certo? A resposta para essa questão é um sonoro “ Não”. Um estudo publicado no periódico científico americano Earth’s Future aponta que as ondas de calor que afetaram o hemisfério norte em 2018 não poderiam ter ocorrido sem o intermédio da mudança climática induzida pelo ser humano.

Mas, como eles chegaram à essas conclusões? Bem, trocando em miúdos o estudo comparou diversos modelos climáticos, gerados por computador com base nos dados climáticos (como temperatura, precipitação quantidade de dias com temperaturas maiores que as médias anuais) recolhidos por estações meteorológicas e serviços governamentais ao redor do mundo. Utilizando esses dados, amplamente disponíveis à comunidade científica, é possível construir modelos que nos permitem testar previsões e fenômenos como as ondas de calor.

Portanto, sua principal conclusão foi a de que sem o acréscimo na temperatura global, provocado pela intervenção humana, a maioria dos modelos não previam ondas de calor como as de 2018 e de 2019. Isso se enquadra muito bem no resto das previsões feitas por diversos estudos de que os fenômenos climáticos extremos estão ficando mais comuns.

Com tudo isso posto, me vem uma pergunta à mente: por que ainda há tantos negacionistas da mudança climática? Como em especial os Ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ou o ministro das relações exteriores Ernesto Araújo. Aqui, retornamos a metáfora da casa em chamas. Eles são ou ao menos representam os interesses dos distraídos filhos do velho senhor da antiga anedota budista.

Em sua empáfia habitual eles não percebem as chamas que estão consumindo paulatinamente aqueles que essas figuras caricatas representam. No caso de Salles, que representa a “linha dura” do agronegócio brasileiro, as mudanças climáticas, relacionadas à eventos extremos como as ondas de calor do hemisfério norte, podem representar a perda de bilhões de reais, na figura de secas ou inundações que destruam as lavouras. No caso de Araújo, engajado em uma cruzada ideológica quixotesca contra inimigos imaginários, a negação da mudança climática afeta negativamente a visão do Brasil perante à comunidade internacional. O Brasil troca a posição de líder na procura de soluções dos problemas climáticos pela de pária. Fechando as portas metafórica e literalmente à muitas iniciativas de investimentos e parcerias que, de novo, terão custos econômicos e sociais ao país.

Por fim, em uma perspectiva bastante trágica, não há como escapar da casa em chamas. Nem os filhos que não percebem, ou ainda, não querem perceber o literal e metafórico calor das chamas, nem ao velho, encarnado aqui como os ativistas ambientais, cientistas e demais cidadãos conscientes dos perigos que se avizinham. Parafraseando novamente Carl Sagan: ninguém vira de lugar nenhum para nos salvar de nós mesmos.

Eu espero e acredito sinceramente no potencial da reflexão de espaços como esses, mas, deixo aos leitores o pedido: o tempo está se esgotando, precisamos agir aqui e agora.

Leia também: [Apenã #034] Caos Climático — Pedro Faria (CDP)


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Podcast Apenã

[Apenã #034] Caos Climático — Pedro Faria (CDP)

Um episódio cheio de esperança e força, mesmo em meio ao Caos Climático que estamos vivendo.
Entrevista base: Pedro Faria, da CDP, uma organização que trabalha com transparência da informação relacionada aos impactos ambientais de grandes empresas.

Além dele, estiveram presentes, a Bia Mizoguchi, o Vinícius Zanella, o Domingos Sávio, o Gabriel Costa Oliveira e o prof. Danilo Ovileira.
Além de perguntas do Phill, do Werther e do Gabriel.

Links:
climate.nasa.gov/vital-signs/global-temperature/
www.cdp.net/pt

Um esboço da entrevista:

Ana Rosa: Você poderia se apresentar?

Pedro Faria: O meu nome é Pedro Faria, tenho formação como Eng.º do Ambiente e trabalho há 20 anos em áreas relacionadas com o ambiente — inicialmente ligado a questões de tecnologia e controlo poluição e posteriormente em áreas relacionadas com as alterações climáticas. Há cerca de 10 anos comecei a trabalhar na CDP — onde fui Diretor Técnico durante cerca de 9 anos e onde dou aconselhamento estratégico à equipa executiva.

AR: O que é a CDP, como nasceu essa organização? E o que motivou a criação do Carbon Disclosure Project/Projeto de Divulgação de Carbono?

PF: A CDP é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos que tem como visão uma economia que funcione tanto para as pessoas como para o planeta, que seja sustentável no longo-termo e que respeite os limites físicos do planeta. A nossa missão é focar os investidores, as empresas e as cidades na tomada de ações concretas e urgentes de forma a criar esta economia sustentável. Fazemo-lo através da medição e compreensão dos seus impactes ambientais. Trabalhamos muito nos aspectos relacionados com a transparência das empresas.

A CDP foi criada em Londres, por um grupo de amigos, que pensou que tendo em conta os riscos significativos que decorrem das alterações climáticas, não existia informação que verdadeiramente revela-se a exposição das empresas cotadas em bolsa ao risco climático — e isto em Londres, num dos principais mercados bolsistas do mundo — e nem tão pouco existia informação sobre as medidas para mitigar esses riscos. Foi assim que, este grupo inicial, resolveu estabelecer um diálogo com os investidores para perceber as suas necessidades e depois, a partir de um pequeno de investidores que os apoiaram e em seu nome, solicitar às empresa que divulgassem as suas emissões, os seus modelos de governança bem como os seus procedimentos de gestão de risco e oportunidades. E é a partir desta base que a CDP tem evoluído.

AR: O que é o CDP Carbon Majors Report 2017? Você poderia comentar sobre os relatórios desenvolvidos pela CDP?

PF: O relatório Carbon Majors é um estudo realizado em conjunto com o Climate Accountability Institute, com o Rick Heeded, em que trabalhámos com ele na atualização e expansão da sua base de dados e metodologia de cálculo. Trata-se de uma atualização de um trabalho que o Rick já tinha realizado e que deu origem ao artigo do Rick no Journal of Climatic Change — intitulado justamente “Carbon Majors”. Basicamente, este estudo tenta contabilizar as emissões de carbono implícitas nos modelos de negócio de alguns dos sectores que são responsáveis pela extração de carbono e sua introdução na economia — o setor de petróleo e gás e o sector dos cimentos, em particular. Trata-se de alguma forma de um estudo fundamental que revelou uma realidade da qual se suspeitava mas para a qual não tínhamos números — que menos de 100 empresas são responsáveis pela extracção e oferta no mercado de produtos que representam cerca de 2/3 das emissões históricas de Gases de Efeito de Estufa. Se quiser procurar um beneficiário direto por ⅔ das emissões antropogênicas de CO2, são essas 100 entidades. No nosso estudo, focamo-nos não tanto nos aspectos históricos, mas na atualização e expansão do n.º de empresas, cobrindo as suas emissões desde 1988 até 2015. Este período é muito importante porque foi a partir de 1988 que a comunidade científica reconheceu inequivocamente que as alterações climáticas eram devidas à ação humana e ao aumento das emissões de CO2. Por outro lado mais de 50% das emissões históricas de origem humana foram feitas nos últimos 30 anos — portanto, é uma responsabilidade recente e ninguém pode dizer que os efeitos eram desconhecidos.

AR: Quais os objetivos desse projeto?

PF: O objectivo último do projeto está relacionado com um dos nossos valores essenciais que é o da transparência. A CDP estava já a fazer um trabalho de estimativa de emissões por parte das empresas que não reportam ao CDP, de forma a criarmos uma base de dados bastante completa de emissões de um grande conjunto de empresas cotadas em bolsa. Foi com base nesse trabalho, que implicava também o cálculo das emissões de âmbito 3 — emissões indiretas causadas na cadeia de valor das empresas — que definimos como prioridade o cálculo das emissões implícitas dos produtos das empresas de petróleo e gás. Entretanto o trabalho do Rick foi publicado, o que nos deixou muito entusiasmados. Eu tive a oportunidade de conhecer e falar com o Rick em Lima — na COP 20 — e a partir daí começamos uma colaboração com o objectivo comum de criarmos uma base de dados, o mais completa possível, não só sobre as emissões históricas — que o Rick já tinha feito — mas também com as emissões mais recentes e com atualizações periódicas. Para a CDP, conforme expliquei, isto era importante do ponto de vista da transparência, mas também porque na altura falava-se muito na possibilidade de os investidores utilizarem este tipo de dados para a caracterização da pegada carbônica dos seus portfólios.

AR: O quanto podemos responsabilizar as empresas presentes nessa lista por suas emissões?

PF: Essa é uma excelente pergunta e para a qual há várias respostas — e com todas elas podemos argumentar e rebater. É largamente uma questão em aberto e que tem sido ativamente debatida nos últimos 4 a 5 anos.

A minha opinião pessoal é a de que há uma responsabilidade moral clara: muitas destas empresas já sabiam em 1988 que os seus produtos eram utilizados e causavam a libertação de emissões de CO2 — isto é óbvio — e que essas emissões são responsáveis pelas alterações climáticas. A maior parte das empresas optou por ignorar este desafio e, em muitos casos, optou por estratégias de desinformação relativas à ciência das alterações climáticas — principalmente, mas não exclusivamente, nos EUA. Esta responsabilidade moral parece-me inequívoca e muitas ordens de grandeza superior à responsabilidade moral do cidadão comum que utiliza esses produtos. Porque não vale a pena disfarçar — todos nós que estamos inseridos na atual economia de mercado — somos utilizadores finais de produtos que libertam CO2 e emissores finais de CO2. Mas fazemo-lo muitas vezes inconscientemente e sem ter verdadeiramente alternativas — a não ser o não consumo que também é uma poderosa alternativa. É uma questão da estrutura da economia. Ora essa estrutura da economia, são as empresa e os governos que estão melhor habilitados para garantir essa mudança — mas nem uns nem outros estiveram interessados nisso.

Existe depois a responsabilidade social. Aqui, muitas empresas têm procurado a justificação do “business as usual” com a defesa de que à uma responsabilidade social de fornecer energia à atual sociedade — a qual é extremamente dependente dela. Nomeadamente, algumas empresas tinham painéis publicitários e linhas de argumentação em torno da questão do desenvolvimento humano, o qual, nos modelos atuais, está mais uma vez extremamente dependente de energia. Esta narrativa é justificada, pela responsabilidade social e moral, de retirar vastas quantidades de pessoas da pobreza através do desenvolvimento econômico e social. É verdade que, esta narrativa que teve algum suporte teórico em argumentos acadêmicos como as curvas de Kuznets — isto é o desenvolvimento econômico até um certo ponto degrada as condições ambientais, mas depois de atingidos determinados patamares, há um movimento contrário de reabilitação do meio ambiente em consequência do desenvolvimento gerado. Mas a realidade é que estas relações nem sempre se verificam e não é sempre necessário degradar o ambiente para o depois o defender. É uma questão do modelo de desenvolvimento e este tem que ser alterado. O modelo de desenvolvimento econômico assente no contínuo crescimento econômico e exploração de energias fósseis colide diretamente com um planeta que tem limites físicos. Além de que as questões da distribuição equitativa dos proveitos desse desenvolvimento não é, na maioria das vezes, assegurado. Portanto esta narrativa da indispensabilidade dos combustíveis fósseis motivada por uma responsabilidade social de desenvolvimento econômico parece-me irreal. Principalmente, se considerarmos que os efeitos das alterações climáticas já se fazem sentir, afetam principalmente as populações mais vulneráveis e causam níveis de dano e destruição que são verdadeiros bloqueios ao desenvolvimento destruindo frequentemente infraestruturas e níveis de serviço que demoraram décadas a serem alcançados. Veja-se por exemplo a situação em Moçambique que é altamente preocupante.

A Responsabilidade Fiduciária é também frequentemente é falada a este respeito: as empresas cotadas e as equipes que as gerem têm uma responsabilidade fiduciária relativa à proteção dos interesses dos investidores e das empresa. Esta perspectiva é normalmente assumida numa perspectiva primeiro, muito restrita — de maximização do retorno financeiro dos investidores — e segundo privilegiando o curto prazo em detrimento do longo prazo podendo ser um fator de bloqueio de ação por parte das empresas. Desbloquear esta percepção da responsabilidade fiduciária para que tenha em conta valores mais abrangentes — por exemplo, considerar não só os investidores, como os trabalhadores ou até as comunidades em que se inserem — e tendo em conta a perspectiva de longo prazo ou até muito longo prazo, é essencial. Isto é amplamente reconhecido, mas não é universalmente aplicado. Há valores em tensão e são muitas vezes os próprios investidores que empurram as empresas para perspectivas de curto prazo e totalmente focadas no retorno imediato do investimento.

Pode ainda existir responsabilidade Civil, isto é, a obrigação de reparar o dano que uma pessoa causa a outra. É certamente na procura de averiguar estas responsabilidades que várias ONGs e comunidades recentemente têm instruídos processos em tribunal procurando ver-se ressarcidas por determinadas empresas que são grandes emissoras de CO2 e contribuíram no passado com grandes quantidade de CO2 de danos incorridos devido às alterações climáticas. Existem vários desafios com esta abordagem, entre as quais a questão de ligar e atribuir determinados eventos às alterações climáticas.

Finalmente, pode existir uma responsabilidade Criminal a qual também tem de ser interpretada à luz do quadro jurídico nacional e internacional e se pode revelar altamente complexa. Algumas ações legais e investigações estão a ser enquadradas sob o ponto de vista do direito internacional e dos direitos humanos — como é o caso da Comissão de Direitos Humanos nas Filipinas que está a considerar se as empresas de petróleo e gás desempenharam um papel na violação de direitos humanos dos cidadãos filipinos ao contribuírem conscientemente com vastas quantidades de emissões e as alterações climáticas.

Mas, mais uma vez, todas estas formas de responsabilidade constituem um debate ativo, não só entre ONG’s, mas também entre governos, empresas e cidadãos.

AR: O que é preciso ser feito para essas empresas reduzirem suas emissões?

PF: Em particular nas empresas de Carvão, Petróleo e Gás, as suas emissões dividem-se genericamente em duas grandes porções: as emissões diretas, isto é emissões que ocorrem resultantes das operações da empresa e que representam mais ou menos 10%; e as emissões indiretas, isto é as emissões que ocorrem decorrentes da utilização dos seus produtos e que representam mais ou menos 90% das emissões diretas e indiretas. Fica pois claro que qualquer ação com vista à redução das emissões totais das empresas passa ou pela alteração do produto dessa empresa; ou pela redução da quantidade de produto; ou ambas as coisas. Ora como facilmente se entende, estas empresas são definidas pelos seus produtos ‘ Petróleo e gás. O que já algumas empresas estão a fazer é re-definirem-se como empresas em que o produto não é petróleo e gás, mas sim energia. Neste quadro existem muitas ações que podem ser feitas. Algumas passam por descontinuar os investimentos nas atividades de pesquisa de petróleo e gás e focar os investimentos em atividades de produção de energias renováveis; ou passa por atividades focadas na pesquisa e desenvolvimento de outras alternativas; ou a possibilidade de captura e sequestro de carbono, que seria uma forma de compensar as emissões dos seus produtos; existem outras possibilidades, mas todas elas passam de alguma forma pela reconversão da atividade das empresas. Devido aos limites que o orçamento de carbono impõe, há um limite para a quantidade de carbono que pode ser extraído sobre a forma de carvão, petróleo e gás. Se as empresas não quiserem assumir a necessidade da transição no seu modelo de negócio e produto, então têm que fazer face à possibilidade do seu encerramento — da cessação da atividade. Acredito que não há muitas outras formas consequentes de dar a volta a este desafio.

AR: Como se deve lidar com empresas se elas não reduzirem rapidamente suas emissões? Boicote, deixar de investir ou qualquer outra coisa?

PF: Boa pergunta. Há muitas coisas que podemos fazer para contribuir — até do ponto de vista estrutural — para a mudança necessária. Desde já procurando reduzir o nosso próprio consumo — se podermos evitar ter automóvel; ou utilizá-lo o menos possível; e privilegiar, se tivermos que ter automóvel, a mobilidade eléctrica. Mas também melhorar as nossas casas do ponto de vista da eficiência energética — e em particular as necessidades de aquecimento o qual é muitas vezes feito com petróleo e gás. Por exemplo podemos adotar pelo aquecimento através de geotermia a qual é não só muitíssimo mais eficiente, como também utiliza a energia eléctrica e portanto, pode ser mais limpa. Ao escolhermos o nosso fornecedor de eletricidade, deveremos optar por um que tenha uma oferta renovável e que garanta que em termos dos seus investimentos, aposta exclusivamente em fontes renováveis e/ou limpas. No que toca às nossas poupanças e fundos de pensões, devemos procurar garantir que eles não estão investidos em empresa fósseis.

Podemos e devemos participar em movimentos cívicos, colaborar com ONGs e campanhas e movimentos políticos. É inevitável que este seja um problema político — afinal trata-se de uma questão transversal a toda a sociedade e que nos afeta a todos. Sendo um problema político, diferentes grupos e interesses da sociedade irão reagir de forma distinta. É importante que criemos um movimento abrangente onde caibam e se complementam diferentes formas de ação. É importante que nos envolvamos nestas questões e participemos nelas como agentes de mudança. Quem elegemos para nos representar é uma questão de cidadania elementar e uma ação importantíssima.

AR: Como sociedade e governo podem apoiar as empresas nesse período de transição?

PF: Normalmente eu considero que há 3 factores principais e inter-relacionados que são a força motora da transição. Elas são as políticas públicas, a tecnologia e os comportamentos. Todas são questões que implicam um envolvimento das sociedades, uma certa nova forma de estruturar a sociedade ou de esta se refletir.

Para mim é claro que as empresas não vão poder fazer esta transição de forma isolada, elas necessitam de ajuda. Parte dessa ajuda passa por um quadro legal que mande sinais claros sobre a direção futura. Por exemplo, do ponto de vista do quadro legal existe imensa coisa que os governos podem fazer: 1) desde logo retirar toda e qualquer forma de apoio, subsídio ou incentivo fiscal à exploração de energias fósseis; 2) a introdução de um preço de carbono no quadro legal, quer através de um imposto ou de sistema de cap and trade; 3) as moratórias relativas à continuação e permissão para exploração de combustíveis fósseis são também um sinal claro; 4) e muitas outras políticas públicas que visam diminuir a procura por este tipo de combustíveis, como por exemplo, ao nível da política energética o phase-out das centrais a carvão, moratórias na construção de nova capacidade instalada eléctrica com base em combustíveis fósseis, incentivo às renováveis, etc. Esse quadro legal ainda está a emergir em muitos países e a sua estabilidade é frágil, dada a atual situação política a nível mundial e a crise das democracias liberais. Veja-se o próprio acordo de Paris e o que aconteceu com os EUA. No meu entender, o momento político não podia ser pior — ele contém muitas ameças mas também daí derivam oportunidades. Daí também esta minha ênfase na importância do envolvimento dos cidadãos nas questões politicas.

Ao nível da tecnologia, os governos também desempenham um papel importante, principalmente ao nível da investigação de base, mas também relativas ao financiamento de tecnologias com potencial futuro, mas que necessitam de apoio com vista à redução do seu custos. Aqui há muitas, muitas questões, porque nem sempre é fácil saber quais as tecnologias que irão vingar ou não. É natural que haja erros e perdas e caminhos que não levam a lado nenhum. É também, cada vez mais necessário, definir quais os caminhos que não queremos percorrer — por exemplo, algumas formas de geoengenharia, como a ocultação ou ensombramento solar, que são por vezes consideradas como formas de combater as alterações climáticas e estender o prazo de validade do modelo de negócio das empresas extratoras de combustíveis fósseis.

Ao nível dos comportamentos as preferências dos consumidores são dinâmicas sociais que podem emergir com grande força e causar disrupção significativa no mundo dos negócios — mas estão também associadas a tendências e modas que podem por vezes ser superficiais e efémeras. Uma tendência é por exemplo a preferência por não utilizar carros, a preferência pela mobilidade eléctrica e ou a utilização de bicicletas e trotinetes/patinetes. Todas estas ações, quando somadas por milhões de pessoas à volta do globo, podem de facto causar um impacto, por exemplo por um decréscimo ou abrandamento da procura. Algumas destas mudanças podem levar a alterações legislativas ou serem incentivadas — ou impedidas — também por alterações legislativas. Portanto há aqui uma inter-relação permanente entre estes factores — o legal, o tecnológico e o comportamental.

AR: Com uma perspectiva no amanhã que queremos construir: como você imagina o fornecimento de energia no futuro?

PF: Eu aqui sou um bocado falho de imaginação, isto é, dependo e sou bastante influenciado pelos cenários que outros têm trabalhado e que são considerados como possíveis para esta transição. Há primeiro que tudo, uma contração da procura ou uma estabilização da procura ou pelo menos um abrandamento significativo do seu crescimento. O nosso planeta é finito, portanto, não podemos ter crescimento ad eternum da procura de energia. Esta é a energia mais limpa — a que não consumimos.

O segundo aspecto é que penso que a energia será maioritariamente eléctrica e seremos mais autônomos do ponto de vista de energia — isto é, existirá um número maior de pessoas a viver “off de grid” ou que pelo menos, não dependerão dela exclusivamente e com algum grau de autonomia. Certamente teremos muitos mais produtores-consumidores de energia, ligados ou não em rede. Teremos certamente uma muito melhor utilização e aproveitamento dos recursos endógenos — da geotermia, à biomassa, ao biogás, ao solar e eólico. Nas necessidade tanto de aquecimento como de arrefecimento, a geotermia será a opção. Curiosamente, e contraditoriamente, talvez haja uma muito maior interdependência recíproca entre países na partilha dos seus recursos endógenos com os vizinhos — por questões de resiliência e partilha de riscos, além de questões de mercado: assim, os extremos da Europa fornecerão energia à Europa Central; as vastidões da Manchuria ou da Mongólia alimentarão Pequim com energia renovável; etc. Não me é muito claro que implicações esta nova realidade terá do ponto de vista político/geo-estrategia, industrial, econômico — mas é mais que provável que tenha importantíssimas consequências a todos estes níveis.

AR: Como você avalia o papel de países em desenvolvimento nesse debate?

PF: A maior parte dos países em desenvolvimento têm tido um papel muito importante de liderança do ponto de vista de promover acordos que sejam mais ambiciosos — é público que as referências a um objectivo de aquecimento máximo de 1.5°C no acordo de Paris foi uma condição dos países de países em desenvolvimento. Isso é muito importante e é, na realidade, uma contribuição fundamental.

Mas para além desse papel muito relevante nas negociações os países em desenvolvimento podem desempenhar um outro papel quiçá ainda mais relevante: o demonstrar que um outro tipo de desenvolvimento humano é possível! Eu diria que há uma maior esperança de os países em desenvolvimento mostrarem ao mundo e realizarem a necessária utopia de um desenvolvimento humano inclusivo e em harmonia com a Natureza.

AR: O quão envolvidas estão empresas brasileiras nas emissões responsáveis pelo efeito estufa? (Petrobras)

PF: O Brasil é uma das 10 maiores economias mundiais e está também naturalmente entre os 10 maiores emissores de GEE do mundo — com cerca de 1.4 Gt de CO2 por ano — desses 0.5 estão relacionados com consumo de energia, 0.44 com agricultura e 0.3 com alteração uso do solo (desmatamento) — segundo os dados do ClimateWatch. Houve uma desaceleração muito forte do desmatamento, enquanto que o crescimento das emissões na energia e agricultura tem sido constante. O perfil de emissões Brasileiro mudou muito nos últimos 15 anos. A mim parece-me evidente que as empresas Brasileiras têm muito trabalho e grandes desafios pela frente. Contudo, o Brasil é uma país com recursos fantásticos e acredito também que o desafio de responder às Alterações Climáticas constitui uma fantástica oportunidade para a Economia e Empresas Brasileiras — muito mais que um risco. No entanto é preciso ter a sabedoria e a visão para adotar o posicionamento correto.

AR: Você gostaria de comentar sobre os efeitos do agronegócio?

PF: O agronegócio é fundamental. Se contarmos todas as emissões relacionadas com ele — consumos de energia, alteração uso do solo (desmatamento) mais emissões atividade agrícola é bem capaz de ser responsável por mais de 50% das emissões Brasileiras. A mim me preocupa principalmente o desmatamento — porque, se por qualquer razão se destruir a Mata Amazônica Brasileira, isso acarretará também a destruição do Brasil e o agronegócio vai por arrasto — é só uma questão de tempo. Preservar a Amazônia é fundamental, os povos indígenas que a defendem e nela habitam há milhares de anos, são importantíssimos e é importantíssima a sua defesa e dos seus direitos. Sem mata não haverá água e sem água não há agricultura.

AR: Como aumentar o debate no Brasil?

PF: Bem, não sei. Penso que a Ana Rosa já está a fazer a sua parte! Penso que a Igreja e os movimentos religiosos — que são no Brasil uma força social fortíssima — poderiam ser uma força motora importante. O Papa Francisco tem feitos esforços notáveis nesta área, mas não sei que efeitos ecos sensíveis têm no Brasil. Também não sei como se têm posicionado as Igrejas Evangélicas a este respeito. Infelizmente conheço insuficientemente o Brasil para responder de forma significativa a essa pergunta. Veja só que na minha visão estereotipada, seria algo relacionado com Futebol, Religião ou tele-novelas…. Mas sinceramente não sei.

AR: Você chamaria atenção dos brasileiros para algum ponto em especial, para atentarmos sobre mudanças climáticas?

PF: Eu chamaria a atenção para a Mata Amazônica e a necessidade da sua preservação. Não só como importante reguladora do clima, não só pela sua biodiversidade, não só pela sua enormíssima riqueza natural e cultural… também porque o ciclo da água de vastas regiões muito populosas do Brasil estão dependentes dela. Como referi há pouco, parece-me que a destruição da Amazónia é em si mesma, a destruição do Brasil. Eu não sou Brasileiro mas gosto muito do Brasil — da sua música, da sua literatura, das suas culturas — e tenho muitos amigos e conhecidos Brasileiros. A Amazônia é Brasileira, tem de ser gerida por Brasileiros, para os Brasileiros — e o que for feito terá consequências antes de tudo no Brasil. É essencial que os Brasileiros amem a Amazónia ainda mais que o futebol!

AR: Começamos a envolver nossos ouvintes ainda mais e abrir para perguntas antes das entrevistas, por meio de post nas nossas redes sociais, twitter e facebook e pelo nosso grupo do Telegram .

Phil e Werther, via Telegram:

  • Que argumentos podemos usar contra quem ainda não acredita no super aquecimento global?

PF: Não é fácil. Em certa medida não vale apena argumentar. Das suas uma: ou a pessoa está de má fé ou está equivocada/enganada. No caso da má fé você está apenas a perder tempo; nestes casos o melhor é ouvir, rebater o que for necessário com a evidência científica e em particular se estiverem outras pessoas a escutar; mas também quando uma pessoa está equivocada, raramente a pessoa muda de opinião na hora. Então o melhor é fazer umas perguntas, deixar umas pistas, umas referências e esperar que a pessoa depois faça o trabalho por si. Porque muitas dessas conversas não levam a lado nenhum a não ser a um extremar de posições. Confesso que eu algumas vezes limito-me a ouvir e sorrir…

  • Onde conseguimos dados atualizados sobre a temperatura global?

PF: Hum… É procurar no Google! Há uma página do NOAA — National Oceanic and Atmospheric Administration — que monitoriza e divulga os PPM de CO2 na atmosfera. Há depois uns sites e apps que tentam traduzir isso em termos de aumento de temperatura — com base em modelos creio, ver por ex. Co2.earth. Mas em geral se se quer fontes fiáveis o NOAA e a NASA são os sítios onde começar, por ex. da NASA.

Gabriel, via Twitter:

  • Você poderia falar sobre a crise da biodiversidade ligada a mudança climática?

PF: Esta é uma pergunta muito boa e muito atual. Estes dois aspectos — a biodiversidade e o clima — são duas das fronteiras essenciais do planeta, em particular para nós humanos. Penso que não existirá vida humana no planeta sem os níveis de biodiversidade que conhecemos. Se por um lado, as AC têm um impacte brutal ao nível da biodiversidade — veja-se no oceanos com a possível destruição de cadeias alimentares até há relativamente pouco tempo intactas com a questão da acidificação dos oceanos — por outro lado a perda de biodiversidade também pode ter um impacte no clima muito significativo — veja-se mais uma vez a questão da Amazônia. Penso que do ponto de vista cientifico esta é uma questão que carece aprofundamento — as relações entre os grandes sistemas e processos do planeta é uma área que ainda não percebemos inteiramente. O que sabemos é que muitas das coisas que temos que fazer para evitar as AC climáticas e ou para nos adaptar às AC são coisas que são boas também do ponto de vista da biodiversidade e conservação. Urge portanto faz-las e encontrar forma de que sejam bem remuneradas ou bem vistas do ponto de vista social ou — ambas as coisas!

  • Para quem é interessante o negacionismo climático?

PF: Ah, não interessa a ninguém a meu ver! Mas falando a sério, interessa a todo os que têm fortes interesses em sectores chave da economia que contribuem fortemente para as AC; interessa aos que apenas têm visões de curto prazo; aos que não se importam de arriscar a vida — sua e dos outros — para ter mais dinheiro… e por vezes reflete também simples ignorância ou pouca inteligência. falta-me certamente muita gente nesta minha resposta, mas no essencial é isto.

AR: Eu gosto de terminar as nossas conversas no Apenã pedindo uma frase ou pensamento que você queira deixar para os nossos ouvintes.

PF: Deixo uma frase do Nelson Mandela de que gosto muito “May your choices reflect your hopes,not your fears” que é qualquer coisa como: possam as nossas escolhas refletir a nossa esperança e não os nosso medos …


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