[Apenã #036] Um Laboratório De Utopias — Miriam Kohn, Olivier Baumann e Christopher Kriese

Uma dose de Utopia, uma dose de Anarquismo, uma dose de Auto-Organização.
No meio da Alemanha, um grupo de jovens estudantes e trabalhadores se reuniram para debater questões importantes para nosso tempo. Para minha surpresa, uma boa quantidade deles falava ou pelo menos entendia português e três deles toparam conversar conosco em um episódio para pensarmos nas utopias necessárias para a construção do Amanhã que precisamos.

Republik

Republik, onde a Miriam é diretora, é uma revista digital sobre política, negócios, sociedade e cultura. Ela traz um modelo um pouco diferente, pois é financiada somente por seus leitores, ela evita cair nas mãos dos lobistas. Do site da revista Republik, em tradução livre:
“Um projeto contra o cinismo:
Nosso jornalismo defende as instituições da democracia contra o avanço dos autoritários. Nós não somos guiados pelo medo, mas pelos valores da transparência.
A Suíça é bem sucedida quando liberais e esquerdistas, progressistas e conservadores lutam por soluções juntos. É por isso que a Republik não é politicamente fixa, mas de modo algum neutra.
Defendemos a fidelidade aos fatos, a abertura à crítica, o desrespeito ao poder e o respeito ao povo.
Nossa revista é independente e livre de anúncios.
O único produto é o jornalismo sensato. E nosso único cliente é você. Nós oferecemos uma organização dos dados e um aprofundamento nas reportagens em vez de uma enxurrada de notícias. Queremos lhe inspirar, enriquecer e surpreender — com contribuições para as questões urgentes da atualidade.”

Tomorrow

Olivier é o co-fundador da Tomorrow, uma startup de tecnologia que desenvolve soluções digitais escaláveis sobre mudança climática.
A ideia da Tomorrow é abordar o impacto climático de todas as escolhas que você faz, calculando automaticamente o impacto climático de suas escolhas diárias, ao se conectar a aplicativos e serviços que você já usa, deixando acessível a todos o impacto climático de tudo.
Enfrentar as Mudanças Climáticas é o maior desafio da nossa geração e vai causar uma das mais profundas transformações sociais que o mundo já viu.
Tomorrow busca divulgar informações a respeito das Mudanças Climáticas para que possamos compreender o impacto climático das nossas ações. Dessa forma as pessoas teriam o poder do conhecimento para tomar decisões melhores e mais bem informadas.
Eles observam o que podemos fazer para reduzir a produção de CO2 por pessoa, apontando como principais das formas de reduzir nossos impactos: reduzir viagens de longa distância; parar a produção de energia em usinas de carvão, gás e petróleo; e evitar o consumo de carne vermelha.
A maior parte do trabalho deles é em código aberto, permitindo que qualquer pessoa contribua com os projetos e verifique os modelos desenvolvidos.

Teatro do Oprimido

Teatro do Oprimido é uma metodologia teatral elaborada pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal que pretende usar o teatro como ferramenta de trabalho político, social, ético e estético. Tem em vista a democratização dos meios de produção teatral, o acesso das camadas sociais menos favorecidas e a transformação da realidade através do diálogo, tal como Paulo Freire pensou a educação, mas agora no teatro. Ao mesmo tempo, traz toda uma nova técnica para a preparação do ator que tem grande repercussão mundial.
Além da arte cênica propriamente, também existe a finalidade política da conscientização, onde o teatro torna-se o veículo para a organização, debate dos problemas, além de possibilitar, com suas técnicas, a formação de sujeitos sociais que possam fazer-se veículo multiplicador da defesa por direitos e cidadania para a comunidade onde o Teatro do Oprimido está a ser aplicado.
Aplicado no Brasil pelas ruas, escolas, igrejas, sindicatos, teatros regulares, prisões, etc. em parceria com diversas ONGs, como as católicas Pastoral Carcerária e CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), ou movimentos sociais, como o MST, as técnicas de Boal ganharam mundo, sendo suas obras traduzidas em mais de 20 idiomas.
O Teatro do Oprimido sistematiza Exercícios, Jogos e Técnicas Teatrais que objetivam a ativação sensorial e desmecanização física e intelectual de seus praticantes, e a democratização do teatro.
Fazem parte da “Árvore do Teatro do Oprimido” técnicas como: o teatro-imagem, o teatro-jornal, o teatro invisível, o arco-íris do desejo, o teatro-fórum e o teatro legislativo.
O Teatro do Oprimido assenta em três grandes princípios, que são as suas propostas mais fortes: a reapropriação dos meios de produção teatral pelos oprimidos, a quebra da quarta parede que separa o público dos atores e a insuficiência do teatro para a transformação social, isto é, a necessidade de ele se integrar num trabalho social e político mais amplo.
O TO parte do princípio de que a linguagem teatral é a linguagem humana que é usada por todas as pessoas no cotidiano. Sendo assim, todos podem desenvolvê-la e fazer teatro. Desta forma, o TO cria condições práticas para que o oprimido se aproprie dos meios de produzir teatro e assim amplie suas possibilidades de expressão. Além de estabelecer uma comunicação direta, ativa e propositiva entre espectadores e atores.
Dentro do sistema proposto por Boal, o treinamento do ator segue uma série de proposições que podem ser aplicadas em conjunto ou mesmo separadamente.
Cumpre ressaltar que todas as técnicas pressupõem a criação de grupos, onde o Teatro do Oprimido terá sua aplicação.

Heróis da Negatividade

O cientista da informação Bernhard Pörksen desenvolveu a ideia de “heroes da negatividade” em seu livro “Die grosse Gereiztheit” (que pode ser traduzido como “A grande irritação”). Há alguns anos, os políticos tinham um certo controle como eles eram percebidos publicamente. Eles podiam controlar uma certa imagem que o povo tinha deles. Agora com mídias sociais, com uma grande aceleração do circuito de notícias e com câmeras de celular em todos os lugares, todos podem fazer registros, não sendo mais possível “proteger” uma certa imagem. Isso fez possível o surgimento de uma nova forma de políticos: Invés de projetar uma imagem profissional, calma e digna, esses “heroes da negatividade” abertamente aparecem de uma forma banal, bruta e indecente. Eles não precisam “proteger” a sua imagem pública contra escândalos, porque todo mundo já sabe, que eles são vilões. Mesmo assim muitas pessoas apreciam a nova autenticidade que esse estilo de comunicação traz. Não é mais possível ferir a reputação deles com “revelações” sobre algo que eles fizeram ou disseram, porque não tem uma imagem a agredir. Eles mesmos já revelam abertamente seus defeitos a todos. Por isso a sátira, o jornalismo investigativo e protestos não têm o mesmo efeito contra eles. Novas estratégias são necessárias contra Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro.

Janela de Overton

A janela de Overton, também conhecida como janela do discurso, descreve a gama de ideias toleradas no discurso público.
A janela inclui uma gama de políticas consideradas politicamente aceitáveis no clima atual da opinião pública, que um político pode recomendar sem ser considerado excessivamente extremo para obter ou manter cargos públicos.
Essa janela pode ser deslocada ao se valer de um discurso de centro-esquerda como se fosse um discurso de extrema esquerda, por exemplo. Assim, um discurso de extrema direita passa a estar dentro dessa janela e se tornar aceitável.
Exemplos desse método pôde ser observado no desenvolvimento da extrema direita no cenário mundial, inclusive brasileiro, nos últimos anos.

Movimento Occupy

O movimento Occupy foi um movimento internacional que expressou oposição à desigualdade social e econômica e à falta de “democracia real” em todo o mundo. Seu objetivo principal era promover a justiça social e econômica e novas formas de democracia. O movimento tinha muitos escopos diferentes, já que grupos locais frequentemente tinham focos diferentes, mas suas principais preocupações incluíam como as grandes corporações (e o sistema financeiro global) controlam o mundo de uma forma que beneficiam desproporcionalmente uma minoria, minam a democracia e causam instabilidade. Ele fez parte do que foi chamou de “movimento pela justiça global”.
O primeiro protesto Occupy a receber atenção generalizada, Occupy Wall Street no Zuccotti Park de Nova York, começou em 17 de setembro de 2011. Até 9 de outubro, protestos do Occupy ocorreram em mais de 951 cidades em 82 países e em mais de 600 comunidades nos Estados Unidos.
Pode-se relacionar o movimento Occupy com a Primavera Árabe, o Movimento Verde Iraniano de 2009 e Movimento Indignados Espanhol, bem como da onda global global de protestos anti-austeridade de 2010 e seguintes. O movimento comumente usa o slogan “Nós somos os 99%” e o formato de hashtag #Occupy; organiza-se através de sites como o Occupy Together.
O movimento foi descrito como tendo um “compromisso primordial” para a democracia participativa. Grande parte do processo democrático do movimento ocorre em “grupos de trabalho”, onde qualquer manifestante é capaz de ter sua opinião. Decisões importantes são frequentemente tomadas nas Assembléias Gerais, as quais podem ser informadas pelos resultados de múltiplos grupos de trabalho. As decisões são tomadas usando o modelo consensual de democracia participativa. Isso muitas vezes caracteriza o uso de sinais manuais para aumentar a participação e operar com facilitadores de discussão em vez de líderes — um sistema que pode ser rastreado em parte pelo movimento Quaker há vários séculos, à democracia participativa na antiga Atenas e aos conselhos espaciais de 1999. movimento antiglobalização.
Nas assembléias, as propostas dos grupos de trabalho são feitas aos participantes da reunião, que comentam sobre eles usando um processo chamado pilha; uma fila de alto-falantes que qualquer um pode participar. Na Cidade de Nova York, o Occupy Wall Street usa o que é chamado de pilha progressiva, na qual pessoas de grupos marginalizados às vezes podem falar diante de pessoas de grupos dominantes, com facilitadores ou encarregados da pilha, encorajando os palestrantes a “dar um passo adiante”. de volta “com base em qual grupo eles pertencem, o que significa que as mulheres e as minorias podem ir para a frente da linha, enquanto os homens brancos devem freqüentemente esperar por uma vez para falar. O conceito de pilha progressiva foi criticado por alguns fora do movimento como “igualdade forçada” e “injusta”.

Escola autônoma de Zurique (Autonome Schule Zürich, ASZ)

A escola é um projeto contra racismo e injusticia. Ela é um ponto de encontro, aonde se pode conhecer outras pessoas.
A ASZ funciona «autônoma». Autônomo quer dizer independente e auto-governado. A escola não pertence ao governo e não recebe ajuda ou dinheiro do governo. A escola de vez em quando recebe material escolar e dinheiro de entidades particulares.
Estudantes e professores trabalham juntos. Os professores e as professoras também são estudantes. Os estudantes também são professores e professoras. Todo mundo é uma parte importante da ASZ. Não tem chefe.
A organização da ASZ e feita pelo escritório da escola e todo mundo trabalha voluntariamente.
Uma reunião plenária é realizada mensalmente para discutir sobre assuntos importantes. Vários grupos de trabalho fazem várias tarefas. Todos participantes da ASZ são responsáveis de criar um lugar de conjunto.
Na ASZ também podem ser realizado próprias idéias. Nos ficamos contente, se você participa de reuniões, trabalha em grupos de trabalho, realiza projetos ou próprias ideias na ASZ.

Links:
Fala da Judith Butler na Occupy WSP: www.youtube.com/watch?v=rYfLZsb9by4
Escola Autônoma de Zurique: www.bildung-fuer-alle.ch/eintrag/portugisiesch
Livro Die Größe Gereiztheit: www.amazon.de/Die-gro%C3%9Fe-Ger…58442?tag=duc03-21
Tomorrow: tmrow.com
Republik: www.republik.ch/


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[Papo Apenã #010] Jornalismo Investigativo — Barbara Viana

Boas vindas pra Bárbara Viana!

A nova membro do Apenã veio participar de uma conversa sobre Jornalismo Investigativo!

A conversa ocorreu logo após o curso sobre Jornalismo Investigativo que aconteceu em Fortaleza com a Nayara Felizardo, correspondente do Intercept no Norte e Nordeste.

Nao podíamos deixar de falar sobre as especificidades do jornalismo independente no Ceará, como a forte presença de radialistas, que vem sofrido perseguição e até mesmo mortos devido ao seu trabalho de denuncia no interior do estado.
Vários outros temas foram abordados, como perseguição a jornalistas e à professora Lola, “uberização” do trabalho, etc.
Algumas das matérias mencionadas:
– Sobre reconhecimento facial aqui e aqui
– Sobre a perseguição da professora Lola
– Sobre perseguição de jornalistas
– Assassinato de radialistas aquiaqui e aqui
– Sobre a engenharia genética
– Sobre a dispensa da ala cardiológica do Monte Klinikum
– Sobre cobradores de ônibus
– Sobre Carmen Lúcia e grandes laboratórios


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[Apenã #035] I Kaben Ma (Escuta Minha Fala) — Coletivo Beture: Simone e Bepunu

Beture, um coletivo de cineastas indígenas que fazem um trabalho audiovisual tanto dentro da aldeia e quanto acompanhando o movimento político indígena pelo Brasil.

Para participarem de evento no Reino Unido, o coletivo Beture recebeu as passagens da empresa Lush para o velho continente, que tentaram conciliar com o máximo de outras atividades no período. Foi um grande prazer os receber na Alemanha, conhecer o Bepunu pessoalmente, estreitar meus laços com a Associação Floresta Protegida e conhecer melhor o trabalho do coletivo Beture.

Links relacionados:
Facebook Coletivo Beture: www.facebook.com/coletivobetureci…astasmebengokre/
Site Associação Floresta Protegida: florestaprotegida.org.br/
Youtube Associação Floresta Protegida: www.youtube.com/channel/UCp4gEMkupeO0M-jsw1Vkykw
Instituto Socioambiental: www.socioambiental.org/pt-br

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[Papo Apenã #009] Agrodóia: Agricultura Regenerativa na Caatinga — Vilmar Luiz Lermen (Domingos Sávio)

Vamos plantar água!!

Na caatinga pernambucana, encontramos uma associação que é um exemplo de movimento regenerativo. Liderada pelo Vilmar Luiz Verner, a Agrodóia é um sistema agroflorestal que já conta com mais de 500 espécies de plantas. A área atrai turistas e pesquisadores.

Esse é o primeiro episódio que tivemos o Domingos Sávio como host, filho de agricultores familiares nordestinos, economista de formação, desde sua graduação tem se dedicado bastante a estudar agroecologia, permacultura, agricultura familiar, etc. O Apenã não poderia encontrar um melhor host para essa entrevista. A conversa aconteceu no Crato-CE, durante a EXPROAF, Exposição dos Produtos da Agricultura Familiar do Cariri, região que engloba parte do Ceará e do Pernambuco.

Vilmar Lermen (direita) ao lado de Ernst Götsch (esquerda), grande referência em sistemas agroflorestais.

Sistemas agroflorestais (SAF), ou agroflorestas, são sistemas que reúnem as culturas de importância agronômica em consórcio com a floresta, uma planta ajudando a outra a se desenvolver, produzindo alimento de forma sustentável e com manejo integrado com florestas naturais. Dessa forma, a produção de alimentos não só não polui o ambiente ao não utilizar venenos e químicos, mas também contribui com a preservação do solo, ajuda na conservação da fauna e da flora, colabora com a fertilidade daquele ambiente e aumenta a produtividade com o passar do tempo.

É muito comum ouvir a frase “vamos plantar água”, em referência a recuperação da área anteriormente degradada, passando até mesmo a aumentar a quantidade de chuva no local, mesmo se tratando de uma área degradada e que costumava enfrentar seca. Isso pode ser muito bem ilustrado com a experiência do Agrodoia, na caatinga pernambucana. Outros exemplos famosos desse tipo de agricultura podem ser observados com o trabalho do Ernst Götsch, na Bahia e práticas na Fazenda da Toca, do Pedro Paulo Diniz, em São Paulo.

Agrodóia.

O exemplo da Agrodóia nos motiva e traz uma esperança real e ativa, de levantarmos as mangas e trabalharmos para o Amanhã Ambientalmente Regenerativo que precisamos construir.

A regeneração ambiental é uma das chaves para enfrentarmos o Caos Climático que se apresenta. Essa regeneração só vai realmente acontecer se levarmos em conta também a sociedade que nos envolve, trabalhando em conjunto com a comunidade.

Curso ministrado por Vilmar


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A Casa em Chamas

Por Gabriel Costa Oliveira

O título desse pequeno texto deriva de uma leitura feita há alguns anos enquanto o mundo era, ou ao menos parecia ser, um lugar menos incerto. Carl Sagan, talvez o maior comunicador de ciência da história, narra em seu derradeiro livro, O Mundo assombrado Pelos Demônios, uma antiga anedota budista com o mesmo título desse texto: A casa em chamas.

Nela um velho homem de vida próspera mora em uma grande casa com seus muitos filhos. Entretanto, um belo dia a casa irrompe em chamas e o velho homem, atento às chamas que o cercam, foge rapidamente do interior da casa, todavia, ele se depara com o horror de que seus muitos filhos distraídos em seus afazeres domésticos, jogos e brincadeiras não percebem as chamas e não tentam fugir delas perecendo em meio às labaredas.

Essa história seria ao menos prosaica se fosse ficcional, mas é extremamente trágica já que é vividamente real. Sim, nossa casa está em chamas, metafórica e literalmente. A Terra, lar da humanidade, está gradativamente mais quente e por influência direta humana.

Bem, você deve estar achando que as chamas são metafóricas ou exageradas, mas pelo segundo ano consecutivo o mundo enfrenta ondas de calor massivas: as temperaturas estão chegando à casa dos 50 graus Celsius no interior da Índia nas últimas semanas, nunca fez tanto calor neste período do verão na Finlândia. Em 2018 dezoito países do hemisfério norte enfrentaram uma das maiores ondas de calor de sua história, e que veio acompanhada de incêndios florestais (no Canada, Estados Unidos, Grécia, Suécia, Portugal e Rússia), mortes e hospitalizações de centenas de pessoas (como no caso japonês com 30 mil pessoas hospitalizadas) e bilhões de dólares em prejuízos.

Mas, pode-se argumentar que tais ondas de calor são fenômenos naturais, fatalidades trágicas em um sentido mais amplo. Certo? A resposta para essa questão é um sonoro “ Não”. Um estudo publicado no periódico científico americano Earth’s Future aponta que as ondas de calor que afetaram o hemisfério norte em 2018 não poderiam ter ocorrido sem o intermédio da mudança climática induzida pelo ser humano.

Mas, como eles chegaram à essas conclusões? Bem, trocando em miúdos o estudo comparou diversos modelos climáticos, gerados por computador com base nos dados climáticos (como temperatura, precipitação quantidade de dias com temperaturas maiores que as médias anuais) recolhidos por estações meteorológicas e serviços governamentais ao redor do mundo. Utilizando esses dados, amplamente disponíveis à comunidade científica, é possível construir modelos que nos permitem testar previsões e fenômenos como as ondas de calor.

Portanto, sua principal conclusão foi a de que sem o acréscimo na temperatura global, provocado pela intervenção humana, a maioria dos modelos não previam ondas de calor como as de 2018 e de 2019. Isso se enquadra muito bem no resto das previsões feitas por diversos estudos de que os fenômenos climáticos extremos estão ficando mais comuns.

Com tudo isso posto, me vem uma pergunta à mente: por que ainda há tantos negacionistas da mudança climática? Como em especial os Ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ou o ministro das relações exteriores Ernesto Araújo. Aqui, retornamos a metáfora da casa em chamas. Eles são ou ao menos representam os interesses dos distraídos filhos do velho senhor da antiga anedota budista.

Em sua empáfia habitual eles não percebem as chamas que estão consumindo paulatinamente aqueles que essas figuras caricatas representam. No caso de Salles, que representa a “linha dura” do agronegócio brasileiro, as mudanças climáticas, relacionadas à eventos extremos como as ondas de calor do hemisfério norte, podem representar a perda de bilhões de reais, na figura de secas ou inundações que destruam as lavouras. No caso de Araújo, engajado em uma cruzada ideológica quixotesca contra inimigos imaginários, a negação da mudança climática afeta negativamente a visão do Brasil perante à comunidade internacional. O Brasil troca a posição de líder na procura de soluções dos problemas climáticos pela de pária. Fechando as portas metafórica e literalmente à muitas iniciativas de investimentos e parcerias que, de novo, terão custos econômicos e sociais ao país.

Por fim, em uma perspectiva bastante trágica, não há como escapar da casa em chamas. Nem os filhos que não percebem, ou ainda, não querem perceber o literal e metafórico calor das chamas, nem ao velho, encarnado aqui como os ativistas ambientais, cientistas e demais cidadãos conscientes dos perigos que se avizinham. Parafraseando novamente Carl Sagan: ninguém vira de lugar nenhum para nos salvar de nós mesmos.

Eu espero e acredito sinceramente no potencial da reflexão de espaços como esses, mas, deixo aos leitores o pedido: o tempo está se esgotando, precisamos agir aqui e agora.

Leia também: [Apenã #034] Caos Climático — Pedro Faria (CDP)


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[Apenã #034] Caos Climático — Pedro Faria (CDP)

Um episódio cheio de esperança e força, mesmo em meio ao Caos Climático que estamos vivendo.
Entrevista base: Pedro Faria, da CDP, uma organização que trabalha com transparência da informação relacionada aos impactos ambientais de grandes empresas.

Além dele, estiveram presentes, a Bia Mizoguchi, o Vinícius Zanella, o Domingos Sávio, o Gabriel Costa Oliveira e o prof. Danilo Ovileira.
Além de perguntas do Phill, do Werther e do Gabriel.

Links:
climate.nasa.gov/vital-signs/global-temperature/
www.cdp.net/pt

Um esboço da entrevista:

Ana Rosa: Você poderia se apresentar?

Pedro Faria: O meu nome é Pedro Faria, tenho formação como Eng.º do Ambiente e trabalho há 20 anos em áreas relacionadas com o ambiente — inicialmente ligado a questões de tecnologia e controlo poluição e posteriormente em áreas relacionadas com as alterações climáticas. Há cerca de 10 anos comecei a trabalhar na CDP — onde fui Diretor Técnico durante cerca de 9 anos e onde dou aconselhamento estratégico à equipa executiva.

AR: O que é a CDP, como nasceu essa organização? E o que motivou a criação do Carbon Disclosure Project/Projeto de Divulgação de Carbono?

PF: A CDP é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos que tem como visão uma economia que funcione tanto para as pessoas como para o planeta, que seja sustentável no longo-termo e que respeite os limites físicos do planeta. A nossa missão é focar os investidores, as empresas e as cidades na tomada de ações concretas e urgentes de forma a criar esta economia sustentável. Fazemo-lo através da medição e compreensão dos seus impactes ambientais. Trabalhamos muito nos aspectos relacionados com a transparência das empresas.

A CDP foi criada em Londres, por um grupo de amigos, que pensou que tendo em conta os riscos significativos que decorrem das alterações climáticas, não existia informação que verdadeiramente revela-se a exposição das empresas cotadas em bolsa ao risco climático — e isto em Londres, num dos principais mercados bolsistas do mundo — e nem tão pouco existia informação sobre as medidas para mitigar esses riscos. Foi assim que, este grupo inicial, resolveu estabelecer um diálogo com os investidores para perceber as suas necessidades e depois, a partir de um pequeno de investidores que os apoiaram e em seu nome, solicitar às empresa que divulgassem as suas emissões, os seus modelos de governança bem como os seus procedimentos de gestão de risco e oportunidades. E é a partir desta base que a CDP tem evoluído.

AR: O que é o CDP Carbon Majors Report 2017? Você poderia comentar sobre os relatórios desenvolvidos pela CDP?

PF: O relatório Carbon Majors é um estudo realizado em conjunto com o Climate Accountability Institute, com o Rick Heeded, em que trabalhámos com ele na atualização e expansão da sua base de dados e metodologia de cálculo. Trata-se de uma atualização de um trabalho que o Rick já tinha realizado e que deu origem ao artigo do Rick no Journal of Climatic Change — intitulado justamente “Carbon Majors”. Basicamente, este estudo tenta contabilizar as emissões de carbono implícitas nos modelos de negócio de alguns dos sectores que são responsáveis pela extração de carbono e sua introdução na economia — o setor de petróleo e gás e o sector dos cimentos, em particular. Trata-se de alguma forma de um estudo fundamental que revelou uma realidade da qual se suspeitava mas para a qual não tínhamos números — que menos de 100 empresas são responsáveis pela extracção e oferta no mercado de produtos que representam cerca de 2/3 das emissões históricas de Gases de Efeito de Estufa. Se quiser procurar um beneficiário direto por ⅔ das emissões antropogênicas de CO2, são essas 100 entidades. No nosso estudo, focamo-nos não tanto nos aspectos históricos, mas na atualização e expansão do n.º de empresas, cobrindo as suas emissões desde 1988 até 2015. Este período é muito importante porque foi a partir de 1988 que a comunidade científica reconheceu inequivocamente que as alterações climáticas eram devidas à ação humana e ao aumento das emissões de CO2. Por outro lado mais de 50% das emissões históricas de origem humana foram feitas nos últimos 30 anos — portanto, é uma responsabilidade recente e ninguém pode dizer que os efeitos eram desconhecidos.

AR: Quais os objetivos desse projeto?

PF: O objectivo último do projeto está relacionado com um dos nossos valores essenciais que é o da transparência. A CDP estava já a fazer um trabalho de estimativa de emissões por parte das empresas que não reportam ao CDP, de forma a criarmos uma base de dados bastante completa de emissões de um grande conjunto de empresas cotadas em bolsa. Foi com base nesse trabalho, que implicava também o cálculo das emissões de âmbito 3 — emissões indiretas causadas na cadeia de valor das empresas — que definimos como prioridade o cálculo das emissões implícitas dos produtos das empresas de petróleo e gás. Entretanto o trabalho do Rick foi publicado, o que nos deixou muito entusiasmados. Eu tive a oportunidade de conhecer e falar com o Rick em Lima — na COP 20 — e a partir daí começamos uma colaboração com o objectivo comum de criarmos uma base de dados, o mais completa possível, não só sobre as emissões históricas — que o Rick já tinha feito — mas também com as emissões mais recentes e com atualizações periódicas. Para a CDP, conforme expliquei, isto era importante do ponto de vista da transparência, mas também porque na altura falava-se muito na possibilidade de os investidores utilizarem este tipo de dados para a caracterização da pegada carbônica dos seus portfólios.

AR: O quanto podemos responsabilizar as empresas presentes nessa lista por suas emissões?

PF: Essa é uma excelente pergunta e para a qual há várias respostas — e com todas elas podemos argumentar e rebater. É largamente uma questão em aberto e que tem sido ativamente debatida nos últimos 4 a 5 anos.

A minha opinião pessoal é a de que há uma responsabilidade moral clara: muitas destas empresas já sabiam em 1988 que os seus produtos eram utilizados e causavam a libertação de emissões de CO2 — isto é óbvio — e que essas emissões são responsáveis pelas alterações climáticas. A maior parte das empresas optou por ignorar este desafio e, em muitos casos, optou por estratégias de desinformação relativas à ciência das alterações climáticas — principalmente, mas não exclusivamente, nos EUA. Esta responsabilidade moral parece-me inequívoca e muitas ordens de grandeza superior à responsabilidade moral do cidadão comum que utiliza esses produtos. Porque não vale a pena disfarçar — todos nós que estamos inseridos na atual economia de mercado — somos utilizadores finais de produtos que libertam CO2 e emissores finais de CO2. Mas fazemo-lo muitas vezes inconscientemente e sem ter verdadeiramente alternativas — a não ser o não consumo que também é uma poderosa alternativa. É uma questão da estrutura da economia. Ora essa estrutura da economia, são as empresa e os governos que estão melhor habilitados para garantir essa mudança — mas nem uns nem outros estiveram interessados nisso.

Existe depois a responsabilidade social. Aqui, muitas empresas têm procurado a justificação do “business as usual” com a defesa de que à uma responsabilidade social de fornecer energia à atual sociedade — a qual é extremamente dependente dela. Nomeadamente, algumas empresas tinham painéis publicitários e linhas de argumentação em torno da questão do desenvolvimento humano, o qual, nos modelos atuais, está mais uma vez extremamente dependente de energia. Esta narrativa é justificada, pela responsabilidade social e moral, de retirar vastas quantidades de pessoas da pobreza através do desenvolvimento econômico e social. É verdade que, esta narrativa que teve algum suporte teórico em argumentos acadêmicos como as curvas de Kuznets — isto é o desenvolvimento econômico até um certo ponto degrada as condições ambientais, mas depois de atingidos determinados patamares, há um movimento contrário de reabilitação do meio ambiente em consequência do desenvolvimento gerado. Mas a realidade é que estas relações nem sempre se verificam e não é sempre necessário degradar o ambiente para o depois o defender. É uma questão do modelo de desenvolvimento e este tem que ser alterado. O modelo de desenvolvimento econômico assente no contínuo crescimento econômico e exploração de energias fósseis colide diretamente com um planeta que tem limites físicos. Além de que as questões da distribuição equitativa dos proveitos desse desenvolvimento não é, na maioria das vezes, assegurado. Portanto esta narrativa da indispensabilidade dos combustíveis fósseis motivada por uma responsabilidade social de desenvolvimento econômico parece-me irreal. Principalmente, se considerarmos que os efeitos das alterações climáticas já se fazem sentir, afetam principalmente as populações mais vulneráveis e causam níveis de dano e destruição que são verdadeiros bloqueios ao desenvolvimento destruindo frequentemente infraestruturas e níveis de serviço que demoraram décadas a serem alcançados. Veja-se por exemplo a situação em Moçambique que é altamente preocupante.

A Responsabilidade Fiduciária é também frequentemente é falada a este respeito: as empresas cotadas e as equipes que as gerem têm uma responsabilidade fiduciária relativa à proteção dos interesses dos investidores e das empresa. Esta perspectiva é normalmente assumida numa perspectiva primeiro, muito restrita — de maximização do retorno financeiro dos investidores — e segundo privilegiando o curto prazo em detrimento do longo prazo podendo ser um fator de bloqueio de ação por parte das empresas. Desbloquear esta percepção da responsabilidade fiduciária para que tenha em conta valores mais abrangentes — por exemplo, considerar não só os investidores, como os trabalhadores ou até as comunidades em que se inserem — e tendo em conta a perspectiva de longo prazo ou até muito longo prazo, é essencial. Isto é amplamente reconhecido, mas não é universalmente aplicado. Há valores em tensão e são muitas vezes os próprios investidores que empurram as empresas para perspectivas de curto prazo e totalmente focadas no retorno imediato do investimento.

Pode ainda existir responsabilidade Civil, isto é, a obrigação de reparar o dano que uma pessoa causa a outra. É certamente na procura de averiguar estas responsabilidades que várias ONGs e comunidades recentemente têm instruídos processos em tribunal procurando ver-se ressarcidas por determinadas empresas que são grandes emissoras de CO2 e contribuíram no passado com grandes quantidade de CO2 de danos incorridos devido às alterações climáticas. Existem vários desafios com esta abordagem, entre as quais a questão de ligar e atribuir determinados eventos às alterações climáticas.

Finalmente, pode existir uma responsabilidade Criminal a qual também tem de ser interpretada à luz do quadro jurídico nacional e internacional e se pode revelar altamente complexa. Algumas ações legais e investigações estão a ser enquadradas sob o ponto de vista do direito internacional e dos direitos humanos — como é o caso da Comissão de Direitos Humanos nas Filipinas que está a considerar se as empresas de petróleo e gás desempenharam um papel na violação de direitos humanos dos cidadãos filipinos ao contribuírem conscientemente com vastas quantidades de emissões e as alterações climáticas.

Mas, mais uma vez, todas estas formas de responsabilidade constituem um debate ativo, não só entre ONG’s, mas também entre governos, empresas e cidadãos.

AR: O que é preciso ser feito para essas empresas reduzirem suas emissões?

PF: Em particular nas empresas de Carvão, Petróleo e Gás, as suas emissões dividem-se genericamente em duas grandes porções: as emissões diretas, isto é emissões que ocorrem resultantes das operações da empresa e que representam mais ou menos 10%; e as emissões indiretas, isto é as emissões que ocorrem decorrentes da utilização dos seus produtos e que representam mais ou menos 90% das emissões diretas e indiretas. Fica pois claro que qualquer ação com vista à redução das emissões totais das empresas passa ou pela alteração do produto dessa empresa; ou pela redução da quantidade de produto; ou ambas as coisas. Ora como facilmente se entende, estas empresas são definidas pelos seus produtos ‘ Petróleo e gás. O que já algumas empresas estão a fazer é re-definirem-se como empresas em que o produto não é petróleo e gás, mas sim energia. Neste quadro existem muitas ações que podem ser feitas. Algumas passam por descontinuar os investimentos nas atividades de pesquisa de petróleo e gás e focar os investimentos em atividades de produção de energias renováveis; ou passa por atividades focadas na pesquisa e desenvolvimento de outras alternativas; ou a possibilidade de captura e sequestro de carbono, que seria uma forma de compensar as emissões dos seus produtos; existem outras possibilidades, mas todas elas passam de alguma forma pela reconversão da atividade das empresas. Devido aos limites que o orçamento de carbono impõe, há um limite para a quantidade de carbono que pode ser extraído sobre a forma de carvão, petróleo e gás. Se as empresas não quiserem assumir a necessidade da transição no seu modelo de negócio e produto, então têm que fazer face à possibilidade do seu encerramento — da cessação da atividade. Acredito que não há muitas outras formas consequentes de dar a volta a este desafio.

AR: Como se deve lidar com empresas se elas não reduzirem rapidamente suas emissões? Boicote, deixar de investir ou qualquer outra coisa?

PF: Boa pergunta. Há muitas coisas que podemos fazer para contribuir — até do ponto de vista estrutural — para a mudança necessária. Desde já procurando reduzir o nosso próprio consumo — se podermos evitar ter automóvel; ou utilizá-lo o menos possível; e privilegiar, se tivermos que ter automóvel, a mobilidade eléctrica. Mas também melhorar as nossas casas do ponto de vista da eficiência energética — e em particular as necessidades de aquecimento o qual é muitas vezes feito com petróleo e gás. Por exemplo podemos adotar pelo aquecimento através de geotermia a qual é não só muitíssimo mais eficiente, como também utiliza a energia eléctrica e portanto, pode ser mais limpa. Ao escolhermos o nosso fornecedor de eletricidade, deveremos optar por um que tenha uma oferta renovável e que garanta que em termos dos seus investimentos, aposta exclusivamente em fontes renováveis e/ou limpas. No que toca às nossas poupanças e fundos de pensões, devemos procurar garantir que eles não estão investidos em empresa fósseis.

Podemos e devemos participar em movimentos cívicos, colaborar com ONGs e campanhas e movimentos políticos. É inevitável que este seja um problema político — afinal trata-se de uma questão transversal a toda a sociedade e que nos afeta a todos. Sendo um problema político, diferentes grupos e interesses da sociedade irão reagir de forma distinta. É importante que criemos um movimento abrangente onde caibam e se complementam diferentes formas de ação. É importante que nos envolvamos nestas questões e participemos nelas como agentes de mudança. Quem elegemos para nos representar é uma questão de cidadania elementar e uma ação importantíssima.

AR: Como sociedade e governo podem apoiar as empresas nesse período de transição?

PF: Normalmente eu considero que há 3 factores principais e inter-relacionados que são a força motora da transição. Elas são as políticas públicas, a tecnologia e os comportamentos. Todas são questões que implicam um envolvimento das sociedades, uma certa nova forma de estruturar a sociedade ou de esta se refletir.

Para mim é claro que as empresas não vão poder fazer esta transição de forma isolada, elas necessitam de ajuda. Parte dessa ajuda passa por um quadro legal que mande sinais claros sobre a direção futura. Por exemplo, do ponto de vista do quadro legal existe imensa coisa que os governos podem fazer: 1) desde logo retirar toda e qualquer forma de apoio, subsídio ou incentivo fiscal à exploração de energias fósseis; 2) a introdução de um preço de carbono no quadro legal, quer através de um imposto ou de sistema de cap and trade; 3) as moratórias relativas à continuação e permissão para exploração de combustíveis fósseis são também um sinal claro; 4) e muitas outras políticas públicas que visam diminuir a procura por este tipo de combustíveis, como por exemplo, ao nível da política energética o phase-out das centrais a carvão, moratórias na construção de nova capacidade instalada eléctrica com base em combustíveis fósseis, incentivo às renováveis, etc. Esse quadro legal ainda está a emergir em muitos países e a sua estabilidade é frágil, dada a atual situação política a nível mundial e a crise das democracias liberais. Veja-se o próprio acordo de Paris e o que aconteceu com os EUA. No meu entender, o momento político não podia ser pior — ele contém muitas ameças mas também daí derivam oportunidades. Daí também esta minha ênfase na importância do envolvimento dos cidadãos nas questões politicas.

Ao nível da tecnologia, os governos também desempenham um papel importante, principalmente ao nível da investigação de base, mas também relativas ao financiamento de tecnologias com potencial futuro, mas que necessitam de apoio com vista à redução do seu custos. Aqui há muitas, muitas questões, porque nem sempre é fácil saber quais as tecnologias que irão vingar ou não. É natural que haja erros e perdas e caminhos que não levam a lado nenhum. É também, cada vez mais necessário, definir quais os caminhos que não queremos percorrer — por exemplo, algumas formas de geoengenharia, como a ocultação ou ensombramento solar, que são por vezes consideradas como formas de combater as alterações climáticas e estender o prazo de validade do modelo de negócio das empresas extratoras de combustíveis fósseis.

Ao nível dos comportamentos as preferências dos consumidores são dinâmicas sociais que podem emergir com grande força e causar disrupção significativa no mundo dos negócios — mas estão também associadas a tendências e modas que podem por vezes ser superficiais e efémeras. Uma tendência é por exemplo a preferência por não utilizar carros, a preferência pela mobilidade eléctrica e ou a utilização de bicicletas e trotinetes/patinetes. Todas estas ações, quando somadas por milhões de pessoas à volta do globo, podem de facto causar um impacto, por exemplo por um decréscimo ou abrandamento da procura. Algumas destas mudanças podem levar a alterações legislativas ou serem incentivadas — ou impedidas — também por alterações legislativas. Portanto há aqui uma inter-relação permanente entre estes factores — o legal, o tecnológico e o comportamental.

AR: Com uma perspectiva no amanhã que queremos construir: como você imagina o fornecimento de energia no futuro?

PF: Eu aqui sou um bocado falho de imaginação, isto é, dependo e sou bastante influenciado pelos cenários que outros têm trabalhado e que são considerados como possíveis para esta transição. Há primeiro que tudo, uma contração da procura ou uma estabilização da procura ou pelo menos um abrandamento significativo do seu crescimento. O nosso planeta é finito, portanto, não podemos ter crescimento ad eternum da procura de energia. Esta é a energia mais limpa — a que não consumimos.

O segundo aspecto é que penso que a energia será maioritariamente eléctrica e seremos mais autônomos do ponto de vista de energia — isto é, existirá um número maior de pessoas a viver “off de grid” ou que pelo menos, não dependerão dela exclusivamente e com algum grau de autonomia. Certamente teremos muitos mais produtores-consumidores de energia, ligados ou não em rede. Teremos certamente uma muito melhor utilização e aproveitamento dos recursos endógenos — da geotermia, à biomassa, ao biogás, ao solar e eólico. Nas necessidade tanto de aquecimento como de arrefecimento, a geotermia será a opção. Curiosamente, e contraditoriamente, talvez haja uma muito maior interdependência recíproca entre países na partilha dos seus recursos endógenos com os vizinhos — por questões de resiliência e partilha de riscos, além de questões de mercado: assim, os extremos da Europa fornecerão energia à Europa Central; as vastidões da Manchuria ou da Mongólia alimentarão Pequim com energia renovável; etc. Não me é muito claro que implicações esta nova realidade terá do ponto de vista político/geo-estrategia, industrial, econômico — mas é mais que provável que tenha importantíssimas consequências a todos estes níveis.

AR: Como você avalia o papel de países em desenvolvimento nesse debate?

PF: A maior parte dos países em desenvolvimento têm tido um papel muito importante de liderança do ponto de vista de promover acordos que sejam mais ambiciosos — é público que as referências a um objectivo de aquecimento máximo de 1.5°C no acordo de Paris foi uma condição dos países de países em desenvolvimento. Isso é muito importante e é, na realidade, uma contribuição fundamental.

Mas para além desse papel muito relevante nas negociações os países em desenvolvimento podem desempenhar um outro papel quiçá ainda mais relevante: o demonstrar que um outro tipo de desenvolvimento humano é possível! Eu diria que há uma maior esperança de os países em desenvolvimento mostrarem ao mundo e realizarem a necessária utopia de um desenvolvimento humano inclusivo e em harmonia com a Natureza.

AR: O quão envolvidas estão empresas brasileiras nas emissões responsáveis pelo efeito estufa? (Petrobras)

PF: O Brasil é uma das 10 maiores economias mundiais e está também naturalmente entre os 10 maiores emissores de GEE do mundo — com cerca de 1.4 Gt de CO2 por ano — desses 0.5 estão relacionados com consumo de energia, 0.44 com agricultura e 0.3 com alteração uso do solo (desmatamento) — segundo os dados do ClimateWatch. Houve uma desaceleração muito forte do desmatamento, enquanto que o crescimento das emissões na energia e agricultura tem sido constante. O perfil de emissões Brasileiro mudou muito nos últimos 15 anos. A mim parece-me evidente que as empresas Brasileiras têm muito trabalho e grandes desafios pela frente. Contudo, o Brasil é uma país com recursos fantásticos e acredito também que o desafio de responder às Alterações Climáticas constitui uma fantástica oportunidade para a Economia e Empresas Brasileiras — muito mais que um risco. No entanto é preciso ter a sabedoria e a visão para adotar o posicionamento correto.

AR: Você gostaria de comentar sobre os efeitos do agronegócio?

PF: O agronegócio é fundamental. Se contarmos todas as emissões relacionadas com ele — consumos de energia, alteração uso do solo (desmatamento) mais emissões atividade agrícola é bem capaz de ser responsável por mais de 50% das emissões Brasileiras. A mim me preocupa principalmente o desmatamento — porque, se por qualquer razão se destruir a Mata Amazônica Brasileira, isso acarretará também a destruição do Brasil e o agronegócio vai por arrasto — é só uma questão de tempo. Preservar a Amazônia é fundamental, os povos indígenas que a defendem e nela habitam há milhares de anos, são importantíssimos e é importantíssima a sua defesa e dos seus direitos. Sem mata não haverá água e sem água não há agricultura.

AR: Como aumentar o debate no Brasil?

PF: Bem, não sei. Penso que a Ana Rosa já está a fazer a sua parte! Penso que a Igreja e os movimentos religiosos — que são no Brasil uma força social fortíssima — poderiam ser uma força motora importante. O Papa Francisco tem feitos esforços notáveis nesta área, mas não sei que efeitos ecos sensíveis têm no Brasil. Também não sei como se têm posicionado as Igrejas Evangélicas a este respeito. Infelizmente conheço insuficientemente o Brasil para responder de forma significativa a essa pergunta. Veja só que na minha visão estereotipada, seria algo relacionado com Futebol, Religião ou tele-novelas…. Mas sinceramente não sei.

AR: Você chamaria atenção dos brasileiros para algum ponto em especial, para atentarmos sobre mudanças climáticas?

PF: Eu chamaria a atenção para a Mata Amazônica e a necessidade da sua preservação. Não só como importante reguladora do clima, não só pela sua biodiversidade, não só pela sua enormíssima riqueza natural e cultural… também porque o ciclo da água de vastas regiões muito populosas do Brasil estão dependentes dela. Como referi há pouco, parece-me que a destruição da Amazónia é em si mesma, a destruição do Brasil. Eu não sou Brasileiro mas gosto muito do Brasil — da sua música, da sua literatura, das suas culturas — e tenho muitos amigos e conhecidos Brasileiros. A Amazônia é Brasileira, tem de ser gerida por Brasileiros, para os Brasileiros — e o que for feito terá consequências antes de tudo no Brasil. É essencial que os Brasileiros amem a Amazónia ainda mais que o futebol!

AR: Começamos a envolver nossos ouvintes ainda mais e abrir para perguntas antes das entrevistas, por meio de post nas nossas redes sociais, twitter e facebook e pelo nosso grupo do Telegram .

Phil e Werther, via Telegram:

  • Que argumentos podemos usar contra quem ainda não acredita no super aquecimento global?

PF: Não é fácil. Em certa medida não vale apena argumentar. Das suas uma: ou a pessoa está de má fé ou está equivocada/enganada. No caso da má fé você está apenas a perder tempo; nestes casos o melhor é ouvir, rebater o que for necessário com a evidência científica e em particular se estiverem outras pessoas a escutar; mas também quando uma pessoa está equivocada, raramente a pessoa muda de opinião na hora. Então o melhor é fazer umas perguntas, deixar umas pistas, umas referências e esperar que a pessoa depois faça o trabalho por si. Porque muitas dessas conversas não levam a lado nenhum a não ser a um extremar de posições. Confesso que eu algumas vezes limito-me a ouvir e sorrir…

  • Onde conseguimos dados atualizados sobre a temperatura global?

PF: Hum… É procurar no Google! Há uma página do NOAA — National Oceanic and Atmospheric Administration — que monitoriza e divulga os PPM de CO2 na atmosfera. Há depois uns sites e apps que tentam traduzir isso em termos de aumento de temperatura — com base em modelos creio, ver por ex. Co2.earth. Mas em geral se se quer fontes fiáveis o NOAA e a NASA são os sítios onde começar, por ex. da NASA.

Gabriel, via Twitter:

  • Você poderia falar sobre a crise da biodiversidade ligada a mudança climática?

PF: Esta é uma pergunta muito boa e muito atual. Estes dois aspectos — a biodiversidade e o clima — são duas das fronteiras essenciais do planeta, em particular para nós humanos. Penso que não existirá vida humana no planeta sem os níveis de biodiversidade que conhecemos. Se por um lado, as AC têm um impacte brutal ao nível da biodiversidade — veja-se no oceanos com a possível destruição de cadeias alimentares até há relativamente pouco tempo intactas com a questão da acidificação dos oceanos — por outro lado a perda de biodiversidade também pode ter um impacte no clima muito significativo — veja-se mais uma vez a questão da Amazônia. Penso que do ponto de vista cientifico esta é uma questão que carece aprofundamento — as relações entre os grandes sistemas e processos do planeta é uma área que ainda não percebemos inteiramente. O que sabemos é que muitas das coisas que temos que fazer para evitar as AC climáticas e ou para nos adaptar às AC são coisas que são boas também do ponto de vista da biodiversidade e conservação. Urge portanto faz-las e encontrar forma de que sejam bem remuneradas ou bem vistas do ponto de vista social ou — ambas as coisas!

  • Para quem é interessante o negacionismo climático?

PF: Ah, não interessa a ninguém a meu ver! Mas falando a sério, interessa a todo os que têm fortes interesses em sectores chave da economia que contribuem fortemente para as AC; interessa aos que apenas têm visões de curto prazo; aos que não se importam de arriscar a vida — sua e dos outros — para ter mais dinheiro… e por vezes reflete também simples ignorância ou pouca inteligência. falta-me certamente muita gente nesta minha resposta, mas no essencial é isto.

AR: Eu gosto de terminar as nossas conversas no Apenã pedindo uma frase ou pensamento que você queira deixar para os nossos ouvintes.

PF: Deixo uma frase do Nelson Mandela de que gosto muito “May your choices reflect your hopes,not your fears” que é qualquer coisa como: possam as nossas escolhas refletir a nossa esperança e não os nosso medos …


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[Papo Apenã 008] Um pé na Aldeia, outro no Mundo

Um Papo Apenã muito especial, com o Edgar Kanaykõ, do povo Xakriabá no Norte de Minas, mestrando em antropologia pela UFMG e ativo no ativismo indígena pelo Brasil.

Conversamos sobre a produção de mídia indígena, ATL (Acampamento Terra Livre), Cosmologia indígena e muito mais.

Alguns Links:
Edgar Kanaykõ — www.instagram.com/edgarkanayko/
Mídia Índia — instagram.com/midiaindiaoficial?…gshid=1sdr747fhk13
Visibilidade Indígena — instagram.com/visibilidadeindige…shid=1gba52nf66svj
Levante Indígena — instagram.com/levanteindigena?ut…gshid=kjbt9tie58x6
Rede Juventude Indígena — instagram.com/rejuind?utm_source…shid=1pt9u1rj7dd15
Radio Yandê — instagram.com/radioyande?utm_sou…shid=1iwt994xf4ymh


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[Apenã #032] Adentrando a Ditadura: Guerrilha Do Araguaia — Janailson Macêdo

Ditadura Nunca Mais

Arte feita utilizando foto da Comissão da Verdade, em frente a Casa Azul.

Esse podcast se propõe a pensar sobre o Amanhã que queremos construir, sendo ele diverso, socialmente justo e ambientalmente regenerativo.

E para construirmos conscientemente o Amanhã que buscamos, é muito importante mantermos nossa Memória!!

Eu tive o prazer de conversar com o historiador Janailson Macedo e, como ele mesmo fala:

“não encaramos de frente o que aconteceu durante a (ditadura:) tortura, assassinatos, sumiço de corpos (…) e justamente por não encarar de frente certos problemas, a gente continua reproduzindo aquilo que o gerou também.”

 

Pensarmos que o Brasil só opta por criar a Comissão da Verdade depois de ter sido condenado na corte interamericana de Direitos Humanos nos mostra bem isso.

Não encaramos a memória de momentos importantes da nossa história.

Pensar que o início de uma fase repleta de tortura, assassinatos e sumiços de corpos pode ser celebrada é de um nojo tremendo.

Vemos que não encaramos nossa memória ao perceber como nossa sociedade silenciou sobre o que ocorreu durante esse período.

Claro, as vezes é melhor não falarmos sobre momentos que nos foram dolorosos, mas mesmo tendo morado perto de onde ocorreu a Guerrilha do Araguaia, eu me surpreendi ao ouvir um relato de amigo que teve o pai levado por semanas, pelos militares. As vezes parece que nos distanciamos ao máximo do que ocorreu.

Entre as perguntas vamos ouvir relatos presentes no documentário Araguaia: Campo Sagrado, do Evandro Medeiros.

E o Evandro Medeiros Já esteve por aqui no Apenã 23, quando falamos sobre Questões Sociais na Amazônia.

Esse episódio foi gravado ano passado, que deveria compor a campanha de um grupo de podcasters para tratar a Ditadura Militar. Infelizmente, por problemas pessoais, não pude editar o episódio a tempo de participar da campanha e guardei essa entrevista com muito carinho e tenho grande prazer em finalmente estar podendo soltar esse episódio, peço desculpas pelo atraso, mas acredito que o assunto se mantém muitíssimo atual.

O assunto é pesado e por isso acabamos não sendo um dos episódios mais alegres que já tivemos por aqui. Também vou deixar aqui um aviso, principalmente relacionado aos depoimentos contidos aqui, se você tiver problemas com gatilhos relacionados ao assunto, ouça com cuidado ou pule algumas partes.

O último episódio foi uma conversa sobre outras possibilidades que surgem mesmo em momentos de emergência. Aqui vamos seguir a mesma linha, vamos falar sobre o início das atividades no Araguaia, quando “eles tentavam botar em prática relações comerciais mais justas, não baseadas na exploração (…), diferindo das relações capitalistas”, médico que não cobrava ou cobrava apenas valores irrisórios para o atendimento, parteiras e professoras, relações comerciais até com farmácias que não visava o lucro, com produtos de qualidade a preços bem baixos.

Deixo bem claro que não estamos apoiando nenhum tipo de violência, mas exatamente para termos opções frente à luta armada, precisamos encarar nossa memória.

Esse ano tivemos o filme sobre o Marighella, que esteve na cidade, agora vamos também ouvir sobre a Dina, o Murilo, o Osvaldão e outros, que estiveram no campo.


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[Papo Apenã #006] Movimento Das Mulheres Do Curdistão — Florencia Guarch #OPodcastÉDelas

Uma das bases desse projeto é pensar nos caminhos possíveis que temos à nossa frente. E para pensarmos em outros caminhos possíveis, outras estruturas possíveis, trouxe a Florencia Guarch, especialista no Movimento das Mulheres do Curdistão, para um papo muito gostoso.

Do artigo Biji Kritik Rojava: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial, selecionei alguns trechos:

“O Confederalismo Democrático — modelo autogestionário que corresponde ao estatuto revolucionário de Rojava, (…) basicamente organiza a sociedade em níveis escalares partindo da base, e exige máxima representatividade da população nas esferas especializadas da política.”

“O modelo em vigor em Rojava foi montado (…) a partir de um repertório extenso de gestões da esquerda no último século, compondo num único mecanismo uma miscelânea de elementos do anarquismo e do socialismo, tanto quanto da social-democracia e da antiga ordem feudal, tem forte influência do movimento feminista ocidental, incorpora novas ondas capitalistas como a “economia solidária”, além de tentar introduzir técnicas ecológicas para a produção em geral.”

 

Os possíveis modelos de democracia e autogestão que estão ao nosso alcance, mesmo em situações tão adversas, permite uma organização da sociedade com bem mais representatividade popular nas esferas políticas. Mas esse modelo não está preso a seguir uma única linha, até pelas urgências locais.

E, claro, não podemos de deixar de falar sobre o papel indispensável das mulheres no movimento. Fico feliz de trazer para a campanha #OPodcastÉDelas2019 exemplos de mulheres revolucionárias na frente da luta contra a opressão em um cenário de guerra.

“Se hoje as mulheres ocupam papel central na formação social de Rojava, isso definitivamente não se deu por conta de uma “natureza feminina”, nem a convite de um líder homem iluminado, mas porque elas foram armadas pelas necessidades da guerra, ganharam força nas revoltas populares e forçaram sua maior participação ao longo do processo, como protagonistas da luta contra suas próprias opressões.”

Links:
twitter.com/i/moments/1021441785602756609
http://passapalavra.info/2018/04/119300


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[Apenã #031] Mulheres Nas Ciências #OPodcastÉDelas

Com grande diversidade de perspectivas reunidas nesse ep, começamos o mês de Março e a campanha #OPodcastEDelas2019. Trouxemos vários depoimentos de Mulheres nas Ciências – de diversas áreas, de diversas regiões do país, em diversos momentos da carreira acadêmica. <3

 

Contamos com:
– Joyce Kelly da Silva, química
– Bia Dias, bióloga
– Bárbara dos Santos, ciêntista política
– Débora Prado, jurista, Elas Chutando a Escada
– Marcela Alves, cientista da computação
– Renata Milanês, cientista social
– Taisa Mattos, comunicadora social, pesquisadora de comunidades sustentáveis
– Bia Mizoguchi, bióloga
– Beatriz Macedo, psico pedagoga
– Lygia Policarpio, engenheira de materiais
– Aline Pinheiro, letras em língua portuguesa
– Karina Oliveira, linguista, Apenã 26, Esperanto
– Bárbara Paes, bióloga, Dragões de Garagem
– Tupá Guerra, historiadora e demonologista


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